Galileu e a ciência

Assista Carl Sagan explicando a trajetória de Galileu Galilei - Revista  Galileu | Ciência

“A superstição é a realização dos espíritos fracos”, dizia Edmund Burke, no século 18.

Esse era o pensamento de Galileu (1564-1642): “Eu acredito que a autoridade das Sagradas Escrituras tinha unicamente o objetivo de persuadir os homens sobre proposições e pontos de doutrina que, sendo necessários para a nossa salvação e se sobrepondo a toda razão humana, não poderiam ser tornados críveis por nenhuma outra ciência.”

Isso foi escrito para um ex-aluno, que havia tentado refutar citações bíblicas contrárias à visão copernicana, feitas pela grã-duquesa Cristina de Lorena.

Galileu finalizou essa carta pondo as coisas nos seus lugares: “Não achava que o mesmo Deus que nos deu nossos sentidos, nossa razão e nossa inteligência desejasse que abandonássemos seu uso”.

O problema é que os procuradores de Deus, a Igreja, achavam que sim: as verdades e a ética eram aquelas determinadas por religiosos, por um grupo de autointitulados “homens sábios”, em vez de pelas experiências, reflexões ou opiniões dos livres-pensadores.

O pensamento de Galileu, aliás, estava alinhado com o de Santo Agostinho, que no século V, dissera – com desdém – que os escritores sagrados não pretendiam ensinar ciência, “uma vez que tal conhecimento em nada contribuía para a salvação”.

Saber é poder, todos sabem disso, exceto nosso atual governante que ontem, 8 de outubro de 2021, reduziu 87% da verba do MCT.

À falta do saber científico, criam suas verdades mentirosas. Engraçado (por que chorar?) é que no dia anterior o ministro da pasta, voando, afirmou no circo oficial que “a área (C&T) é essencial para o desenvolvimento econômico e social de qualquer país, e que são exatamente essas as áreas que diferenciam aqueles países que estão em estágio mais avançado”! 

Voltando a Burke: “Os perigos crescem se os desprezamos.” E, “tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam.”

Argh! Voltemos a Galileu.

Não sei se Galileu sofria de insônia, mas o fato é que numa noite de janeiro de 1610, ele ficou acordado até tarde, com o olho na extremidade de um tubo que havia aperfeiçoado.

Esse tubo fazia com que os objetos parecessem vinte vezes maiores!

Nesta noite, ele observou Júpiter e viu o que imaginou serem três estrelas fixas próximas a ele, descrevendo uma linha em torno do planeta. Esta formação chamou sua atenção e ele voltou ao telescópio na noite seguinte. Observou, então, que os três corpos tinham se movido com Júpiter! Ora, as estrelas não se movem com os planetas!

Noite após noite, acompanhou esta formação. Em 15 de janeiro tinha desvendado o caso: não eram estrelas, mas satélites.

Isso não era “certo”. Segundo Ptolomeu só havia um único centro – a Terra -, em torno da qual tudo girava.

Copérnico já havia dito que a Terra girava em torno do Sol (e só a Lua, em volta da Terra), mas essa ideia ainda parecia absurda.

Aqueles satélites de Júpiter, entretanto, testemunhavam a possibilidade de múltiplos centros. Ptolomeu fora definitivamente vencido.

Galileu, um grande comunicador científico, logo publicou sua descoberta – em italiano, não em latim – e ficou famoso. Podia ter ficado quieto! Mexeu com um vespeiro. E continuou pesquisando coisas no céu.

Em 1633 foi julgado e considerado “veementemente suspeito de heresia”. A pena foi prisão, depois comutada em prisão domiciliar até sua morte, sem tornozeleira, mas com a obrigação de ler os sete salmos penitenciais uma vez por semana, pelos três anos seguintes.

Em 1638, ficou totalmente cego; morreu em 1642, um ano antes do nascimento de Newton.

Na peça “A Vida de Galileu”, de Bertolt Brecht, há um diálogo entre o inquisidor e o papa que revela bem o espírito do tempo:

O INQUISIDOR — Portanto, Sua Santidade vai lhes dizer, aos doutores de todas as faculdades, que estão se reunindo agora, aos representantes de todas as ordens eclesiásticas e da totalidade do clero — os quais em sua fé infantil na palavra de Deus, tal como está revelada na Escritura, vieram receber de Sua Santidade a confirmação em sua fé

— Sua Santidade vai lhes dizer que a Escritura não pode mais ser dita verdadeira?


O PAPA — Eu não vou deixar que rasguem a matemática. Não!


O INQUISIDOR — Essa gente afirma que é da matemática que se trata e não do espírito da rebeldia e da dúvida. Mas não é de matemática que se trata.

E uma inquietação horrenda que se estende pelo mundo. E a inquietação de seu próprio cérebro que eles transpuseram para a terra imóvel.

Eles gritam: são os números que nos convencem! Mas os números de onde vêm?
Qualquer um sabe que eles vêm da dúvida. Esses homens duvidam de tudo. (…)” (Brecht)

 Para os curiosos, sugiro a leitura de:

  • Incógnito – As Vidas Secretas do Cérebro, de David Eagleman;
  • A Vida de Galileu, de Bertolt Brecht e,
  • Galileu e os Negadores da Ciência, de Mario Livio.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: