Paulo Freire, patrono

As lições de Paulo Freire | ASLe - Academia Saltense de Letras
(Paulo Reglus Neves Freire, 1921-1997)

O pernambucano Paulo Freire faria cem anos hoje.

Os políticos no poder atualmente acham que seu trabalho é perigoso, como aliás vêem toda educação. E, de fato, a proposta de Freire era transformadora (quase escrevi ‘revolucionária’).

Ele é o “patrono da educação brasileira”; recebeu 35 títulos de Doutor Honoris Causa, concedidos por universidades européias e americanas e recebeu o prêmio Educação para a Paz, da Unesco, em 1986.

Freire é considerado perigoso porque suas ideias giram em torno da libertação através do aprendizado, que poderia se dar de forma crítica e autônoma.

Ele não fala “através do ensino”; fala do aprendizado. Aliás, critica o que chamou de “educação bancária”, aquela baseada na “transmissão” do professor ao aluno.

“A narração, de que o educador é o sujeito, conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado.

Mais ainda, a narração os transforma em ‘vasilhas’, em recipientes a serem ‘enchidos’ pelo educador.


Quanto mais vá ‘enchendo’ os recipientes com seus ‘depósitos’, tanto melhor educador será.


Quanto mais se deixem docilmente ‘encher’, tanto melhores educandos serão. “ (Paulo Freire)

O saber precisa fazer sentido a quem aprende, a quem “queira aprender”.

O “conhecimento” trazido pelo professor não é transmissível; precisa ser apreendido pelos educandos em suas esferas de ser (ontológica, política, ética, epistemológica e pedagógica) e, principalmente, precisa ser testemunhado, vivido.

Mesmo os analfabetos sabem um pouco do que é a vida e suas manifestações. Ninguém ignora tudo, assim como ninguém sabe tudo, dizia Freire:

“Não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes.”

Freire escreveu a maioria de seus textos quando o analfabetismo era a regra. Os analfabetos constituíam a metade da população e eram pauperizados por um sistema social marcado pela desigualdade e pela opressão.

Arte analfabetismo (Foto: Editoria de Arte / G1)

Sem o Censo, não temos como saber a taxa atual de analfabetismo no país. Em 2019, era estimada em 6,6% da população (11 milhões). No Nordeste, os analfabetos eram 13,9%, enquanto o Sul e Sudeste tinham apenas 3,3% de suas populações nesta condição.

Somem-se ao analfabetismo típico, o funcional, o digital e o político.

Saber ler e escrever não traz diploma de cidadania. Vemos muitos graduados sem nenhum senso do que seja viver em sociedade. Mas, o analfabeto tende a ser mais manipulável politicamente, até por sua fragilidade econômica.

Olavo de Carvalho, ainda guru deste governo e das elites, discorda de Paulo Freire:

“Um país que crê numa educação de elite para todos, ou em educação popular para os membros da elite é, por
escolha própria, um país de perdedores.”

Freire assumia que a pedagogia é um ato político: não há neutralidade no que se pretende “transmitir”. E que, “o ato de ler, não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas se antecipa e se alonga na inteligência do mundo”.

Educação é procura“; procura por uma menor incompletude.

No seu clássico “Pedagogia do Oprimido“, enfatiza esse esforço de totalização: “… em uma cultura letrada, aprende-se a ler e escrever, mas a intenção última com que o faz, vai além da alfabetização. Atravessa e anima toda a empresa educativa, que não é senão aprendizagem permanente desse esforço de totalização – jamais acabada – através do qual o homem tenta abraçar-se inteiramente na plenitude de sua forma”.

Estava lá, também, o conceito de lifelong learning, tão em voga.

“Os oprimidos, que introjetam a ‘sombra’ dos opressores e seguem suas pautas, temem a liberdade, à medida em que esta, implicando na expulsão desta sombra, exigiria deles que ‘preenchessem’ o ‘vazio’ deixado pela expulsão, com outro ‘conteúdo’ – o de sua autonomia.


O de sua responsabilidade, sem o que não seriam livres.

A liberdade, que é uma conquista, e não uma doação, exige uma permanente busca.

Busca permanente que só existe no ato responsável de quem a faz.

Ninguém tem liberdade para ser livre: pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem.

Não é também a liberdade um ponto ideal, fora dos homens, ao qual inclusive eles se alienam.

Não é ideia que se faça mito. É condição indispensável ao movimento de busca em que estão inscritos os homens como seres inconclusos.” (Pedagogia dos Oprimidos, Freire)



Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

2 comentários em “Paulo Freire, patrono

  1. Freire é considerado perigoso porque suas ideias giram em torno da libertação através do aprendizado, que poderia se dar de forma crítica e autônoma.

    Quem sou eu para concordar ou discordar de Paulo Freire. Diz ele “através do ensino”; fala do aprendizado. Aliás, critica o que chamou de “educação bancária”, aquela baseada na “transmissão” do professor ao aluno. Existe gênios que nunca lustrar bancos escolares e existe burros que fizem pós doutorado . Paulo Freire foi durante contestado especialmente pelos governos ditatorias e não vamos muito longe. Evidente que existe dois tipos de conhecimentos: o nato” genio” que nunca foi a escola e o “conhecimento dos bancos escolares” todo poder autoritário nunca gostaria que o gênio nato , fosse escolarizado, porque além de ser “gênio nato, escolarizado” seria um perigo ao autoritarismo . Concluindo veja uma parte do que de Paulo Freire escreve: “Freire assumia que a pedagogia é um ato político: não há neutralidade no que se pretende “transmitir”. E que, “o ato de ler, não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas se antecipa e se alonga na inteligência do mundo”. O governo já se manifestou a esse respeito. “Desestimulou, não investiu na ciência, definindo como disse Freire “ensino pedagógico” juntando-se ao “genio nato” seria difícil virar massa de manobra.
    #100anospaulofreire

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  2. Paulo Freire, reconhecido universalmente, exceto em sua terra que, paradoxalmente, é onde mais necessitamos de sua luz e lucidez.
    Um desperdício que cobra, através dos tempos, sua pesada conta.

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