A estupidez como guia

“As massas nunca tiveram sede da verdade.

Elas se afastam de evidências que não são do seu gosto, preferindo deificar o erro, se o erro os seduzir.

Quem quer que possa lhes fornecer ilusões é facilmente seu senhor; quem tenta destruir suas ilusões é sempre sua vítima.” (Gustave Le Bon, 1841-1931)

Le Bon estudou as multidões e concluiu que elas não são o somatório de suas partes – elas são entes à parte. Já falamos sobre isso por aqui.

Na multidão há uma prevalência da estupidez.

Alguns lembrarão das cinco Leis Fundamentais da Estupidez Humana, de Carlo Cipolla, também já comentadas aqui.

Mas o tema está sempre no noticiário; nosso país virou um laboratório sobre a estupidez, único plano de governo vigente.

Isso me lembra Dora Flood, uma personagem de “A Rua das Ilusões Perdidas”, de John Steinbeck.

Dora era uma respeitável dona de um bordel, que “sendo contra a lei, pelo menos contra a letra da lei, era duas vezes mais respeitadora que qualquer outra pessoa”. Ela, que vivia do dinheiro vergonhoso do pecado, era consciente e respeitava a lei. Por essa atitude, era, entretanto, explorada pela sociedade local. Tudo lhe era cobrado em dobro.

Na nossa política não há Doras; o cinismo, não a Constituição, parece ser a lei superior.

Nas palavras de Sacha Golob, a estupidez não guarda relação com a ignorância; pessoas inteligentes também podem agir estupidamente. O que se alia à estupidez é a insensatez.

A estupidez se manifesta quando agimos a partir de conceitos e visões aos quais aderimos sem uma análise sobre sua viabilidade ou contemporaneidade.

Em termos práticos, ocorre quando você não tem as ferramentas conceituais certas para o que faz. O resultado é uma incapacidade de entender o que está acontecendo e uma tendência resultante de moldar o mundo ao nosso pensamento, ao invés de nos adaptarmos à realidade.

Isso aconteceu, por exemplo, com as trincheiras na primeira Guerra ou com a Linha Maginot, na segunda. Táticas suplantadas pelas novas tecnologias.

Aqui, recorre-se sempre ao ideário das Forças Armadas como Poder Moderador, eufemismo para ditadura.

Ora, pagamos para que os militares se atualizem, comprem armamentos e desfrutem do ócio, com os objetivos de defender nossas fronteiras e garantir os poderes constitucionais. Há traição maior do que esse aparato se voltar contra a própria sociedade?

Esse ócio é perigoso, pois como dizia dindinha, “Mente vazia é oficina do Diabo”, ditado que possivelmente derivava do que dissera William Cowper (1731-1800): “a falta de ocupação não é repouso; uma mente absolutamente vazia vive angustiada”.

Traição, aliás, é a razão pela qual ainda há previsão de pena de morte no Brasil, conforme inciso 47 do artigo quinto da Constituição, no caso de guerra declarada.

Há ainda, o inciso 44 do mesmo artigo: “constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”.

Por que não se lê a Constituição, pelo menos aquelas autoridades que juraram preservá-la?

O que leva algumas pessoas, que a partir do uso de uma farda e de armas, a pensarem que podem conduzir a sociedade?

Talvez devêssemos exigir exames psicológicos prévios a candidatos a postos de relevância. Não testes de inteligência, seria pedir demais; só testes de personalidade. Alguns psicóticos poderiam ser eliminados.

https://wordpress.com/post/balaiocaotico.com/1902

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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