Sucesso e fracasso

Meritocracia! Faz sentido?

O conceito até pode ser antigo – aristocratas, por exemplo, tinham o mérito de nascerem nobres – mas esse termo nasceu em 1958, criado pelo sociólogo Michael Young.

Young ironizava; imaginava uma Inglaterra em que as pessoas, no futuro, seriam classificadas de acordo com seu mérito. Para ele isso não fazia sentido, uma vez que o sistema sócio-político-econômico era pautado em desigualdades estruturais. Era e é.

Mas, os liberais abraçaram a ideia. Estes usam a meritocracia como uma “justificativa moral”. A dignidade é para poucos enquanto a desigualdade é um fosso cada vez mais largo e fundo.

Acreditam (?) que basta a pessoa querer e se esforçar, usar sua “potência”, que se consegue escrever seu nome na calçada da fama.

“A meritocracia é o verniz que deixa lustrosa a nossa cara de pau, a ponto de não enxergarmos (ou não querermos enxergar) as desigualdades que nos constituem, mesmo quando elas têm cores bem definidas.” (Ynaê Lopes dos Santos)

O que se chama “sucesso” é resultado de uma combinação de fatores, muitos dos quais sem controle do indivíduo. E, importante, “sucesso” é uma ficção – a sociedade quer normatizar o que ele seja, mas ele é fruto da leitura de mundo que cada um faz.

Lewis Terman, de Stanford, iniciou uma pesquisa no começo do século passado. Durante mais de meio século acompanhou 1.470 pessoas superdotadas, com QIs iguais ou superiores a 140.

Este patamar de QI é só para cerca de 1% da população.

Resultados: alguns tiveram carreiras altamente bem-sucedidas, outros haviam conseguido realizações mais modestas e cerca de 20% eram claras decepções.

Interessante: dois homens que quando crianças foram rejeitados para entrar no grupo de avaliação – não tinham os 140 de QI – , mais tarde ganharam prêmios Nobel, o que nenhum dos do grupo conseguiu.

Ou seja, a vida é um exercício de complexidade, permeada de aleatoriedade.

Não estou afirmando que a vida é uma questão – unicamente – de sorte ou azar, mas não podemos ignorar suas existências.

“… as grandes disparidades de resultado encontradas em empreendimentos não necessariamente se devem a disparidades comparáveis nas capacidades inatas ou na maneira como as pessoas são tratadas.

Elas também podem refletir o fato de que o sucesso em muitos tipos de empreendimento (como a vida) depende de pré-requisitos peculiares a cada um deles, e uma diferença relativamente pequena no cumprimento desses pré-requisitos pode significar uma diferença muito grande nos resultados.” (Thomas Sowell)

Isso é teoria do caos, um ingrediente da complexidade.

Sowell exemplifica:

“Se um empreendimento apresenta cinco pré-requisitos para o sucesso, então, por definição, as chances de sucesso desse empreendimento dependem das chances de se possuir os cinco pré-requisitos simultaneamente.

Mesmo que nenhum deles seja raro – por exemplo, mesmo que sejam tão comuns que as chances de alguém possuir um deles sejam de duas em três -, as probabilidades de se ter os cinco são baixas.

Se as chances de se possuir qualquer um deles são de duas em três, as chances de se ter todos são de dois terços multiplicados por si mesmos cinco vezes.

Matematicamente: 2/3 x 2/3 x 2/3 x 2/3 x 2/3= 32/243.

Isso dá 32/243, ou cerca de uma chance em oito.

Em outras palavras, as chances de fracasso são de aproximadamente sete em oito.

(…)

… não devemos esperar que o sucesso seja uniforme ou aleatoriamente distribuído entre indivíduos, grupos, instituições ou nações em empreendimentos com múltiplos pré-requisitos …

… pessoas que possuam mais pré-requisitos para o sucesso podem, mesmo assim, fracassar totalmente.”

Não há garantias para dar certo, mesmo se tendo os requisitos necessários. Sem eles, logicamente, as coisas beiram o extraordinário.

Esses casos extraordinários de sucesso – vejam as Olimpíadas – não podem ser transformados em regras de sucesso, mas em cases de excepcionalidades.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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