Por que não?

pensador - LadeBio
(Le Penseur, de Auguste Rodin)

Nosso centenário Edgar Morin procura nos alertar sobre o chamado processo de “racionalização”.

Este processo gera uma espécie de desatenção seletiva, de normalização, de remoção, que são gerados “pela exigência integralmente humana de se defender das angústias provocadas pela incerteza, que impulsionam cada indivíduo a buscar ‘certezas’, ‘ordem’, ‘definitividade’, tudo que possa evitar os dolorosos banhos da realidade na concretude da vida e possa poupar o esforço de repensamentos e questionamentos, fundamental para manter constante a regeneração e para contrastar, tanto quanto possível, a inexorável degeneração.”

Isso nos remete a Edward de Bono e à sua crítica ao sistema tradicional de pensamento, baseado em SIM ou NÃO.

O raciocínio lógico, apoiado em SIM/NÃO, fundamenta-se no ‘julgamento’; não é propício à inovação, que é um ‘movimento’.

O mundo se divide entre aqueles que estão envolvidos na realização de alguma coisa e na produção de novas ideias (a minoria) e aqueles que estão muito ocupados defendendo ideias já estabelecidas (a maioria).

Uns poucos olham para o futuro, os outros, para o passado.

Os que se apegam ao estabelecido, ao certo ou errado, em geral temem o futuro.

“Mas reclamar do futuro não vai detê-lo. Quanto mais mudança houver, mais caos haverá, uma vez que o caos é causado pela divergência nos ritmos de mudança em diferentes partes do sistema”, comenta De Bono.

Não se trata de mudar por mudar. Há ideias ‘consagradas’ que não precisam de mudança; mas, há algumas que são perigosas e precisam mudar.

Rodar em torno do tronco do que é tradicional, numa espécie de veneração, não nos prepara paro o novo, que é inevitável.

Nas universidades, o cultivo da “erudição” é algo assim. Tornou-se um pouco mais do que o triunfo da forma sobre o conteúdo. Observem, a linguagem acadêmica foi estabelecida para olhar para trás e preservar o passado; raramente se volta para a frente para criar o futuro.

A rigidez e o dogmatismo, que normalmente defendemos, proporcionam continuidade até certo ponto mas, daí em diante, geram fragilidade.

Somos treinados, “educados”, para defender ideias, não para mudá-las. Não aprendemos a lidar com incertezas. Temos medo até para lidar com o medo.

Defender o certo, confundido com o tradicional, nos elevaria acima da corrente inconformista que sempre quer mudar as referências.

“Que quimera é, então, o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que motivo de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, imbecil verme da terra, depositário da verdade, cloaca da incerteza e erro, glória e escória do universo.” (Blaise Pascal)

De Bono arrisca a classificar as idades intelectuais do homem, lembrando que o único período criativo na vida da maioria é entre cinco e dez anos:

  • 0 – 5 anos: idade do POR QUÊ?
  • 5 – 10 anos: idade do POR QUE NÃO?
  • 10 anos em diante: idade do PORQUE.

Passamos a maior parte de nosso tempo justificando porque as coisas são – e precisam ser – do jeito que são. Isso nos dá segurança e é sinal de normalidade – social e psicológica.

Ser adulto é reproduzir ideias e atitudes que simbolizem imitação e aceitação.

“O sistema SIM/NÃO é um amplificador de pequenas diferenças, pois trabalha somente com extremos.

Alguém nos pede para decidir se algo pode ser rejeitado ou aceito.

Imediatamente a rejeição torna-se rejeição completa e a aceitação torna-se aceitação completa.

Não temos outra escolha que não seja adotar imediatamente um dos dois extremos.

Algo é preto ou branco, alguém é amigo ou inimigo.

O maior defeito de nosso tipo de democracia é que o sistema baseia-se diretamente na polarização SIM/NÃO.

Assim, pessoas de partidos diferentes têm que tomar atitudes opostas, concordando pessoalmente com elas ou não, para polarizar a escolha do eleitor.” (Edward de Bono)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: