O consumo nos consome

Monteiro Lobato - O Legislativo para crianças - Câmara dos Deputados
(Monteiro Lobato, 1882-1948)

Monteiro Lobato viveu em Nova Iorque entre 1927 e 1931.

Escreveu lá alguns livros, entre eles, América, um diálogo com Mr. Slang, um personagem fictício. Não descobri porque esse nome (gíria, em português).

Mr. Slang já havia opinado sobre o Brasil, num livro anterior, Mr. Slang e o Brasil.

Neste livro, Lobato levantava várias questões, que parecem perenes:

  • o hábito brasileiro de aceitar, por comodismo ou preguiça, ideias alheias;
  • os brasileiros não conseguirem uma solução acertada para os problemas nacionais;
  • eficiência e ineficiência;
  • o Brasil está inexplorado;
  • o valor do trabalho;
  • o povo não está apto a votar, pois não tem cultura nem educação, somente a escassa elite;
  • o fenômeno de gigantismo;
  • o atraso do nosso país;
  • o Brasil é um país velho;
  • protecionismo, desrespeito às leis do progresso;
  • o parasitismo no serviço público;
  • Brasil, país pitoresco;
  • corrupção;
  • descrença excessiva dos brasileiros;
  • crime no Brasil consiste em discordar do governo;
  • inexistência de uma consciência moral.

No livro América, cita uma visita que faz a Walden, onde morou Henry Thoreau. Esse é o pretexto para abordar a questão do consumo. Selecionei alguns trechos:

“A disciplina social exaure.

O chamado progresso não passa duma escravização cada vez mais apertada, que as massas consentem e aplaudem (…)

Progredimos em ‘corporatividade’ e diminuímos em indivíduo. Vamos tendendo para a vida da colmeia, onde o indivíduo não conta. (…)

Cada novo invento significa passo à frente para a vida agregada, para a uniformidade, para o padrão.

A tendência é fortificar os grupos, fundi-los em grupos sempre maiores, integrar o indivíduo na massa, fazer da média, não da exceção, o ideal. (…)

Vivemos todos sufocados pelo excesso de coisas. Coisas demais, vida intensa demais, ciência demais, a serviço da indústria para promover a ‘gavage‘ (alimentação forçada) de toda uma nação.

Excesso, excesso, eis o verdadeiro mal da América, o não sei quê causador do indefinível mal estar que todos sentimos. (…)

O consumo intensíssimo constitui o alicerce da ‘prosperity‘. No dia, porém, em que o eretismo do consumo fraquejar, teremos uma crise catastrófica.

Tudo cansa, até ter.”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

2 comentários em “O consumo nos consome

  1. Dorgival, boa tarde! Um pequeno comentário em relação a publicação. Após o surgimento da “cauda longa (pos web)” o grande grupo se tornou um emaranhado de pequenos grupos, houve a hipersegmentação que muda o conceito descrito por lobato que fala da Massificação para quase tudo. Ainda assim o conceito capturado no início do século perdura até hoje em alguns casos.

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