A história como farsa, ou tragédia?

Carlos Heitor Cony morre aos 91 anos no Rio
(Carlos Heitor Cony, 1926-2018)

Carlos Heitor Cony estava ameaçado de prisão, enquadrado na Lei de Segurança Nacional; a pena poderia chegar a trinta anos de cadeia. Ele havia escrito um texto que desagradara aos novos poderosos, ironizando a bravura dos militares.

Felizmente, conseguiu os serviços de Nelson Hungria, que havia sido presidente do STF.

Hungria pediu um habeas corpus para descaracterizar a LSN e julgá-lo pela Lei de Imprensa, que previa o mesmo crime, o de criar animosidade entre civis e militares, mas com pena de três meses de detenção.

No dia do julgamento do HC, Cony escreveu outro texto, mais incisivo, do qual destaco:

“Respeito o ódio, aceito o amor, mas desprezo o medo. Não há medo: há um Futuro e é nele que eu creio. Sem medo, continuo crendo num futuro, ainda que esse futuro seja sombrio como uma cela e duro como um pão que precisa ser molhado de lágrimas.

Depois desse futuro haverá outro futuro – e esse é o futuro que me interessa.”

O texto original, escrito em 1º de abril de 1964, era:

DA SALVAÇÃO DA PÁTRIA

Posto em sossego por uma cirurgia e suas complicações, eis que o sossego subitamente se transforma em desassossego: minha filha surge esbaforida dizendo que há revolução na rua.

Apesar da ordem médica, decido interromper o sossego e assuntar: ali no Posto Seis, segundo me afirmam, há briga e morte.

Confiando estupidamente no patriotismo e nos sadios princípios que norteiam as nossas gloriosas Forças Armadas, lá vou eu, trôpego e atordoado, ver o povo e a história que ali, em minhas barbas, está sendo feita.

Vejo um heroico general à paisana, comandar alguns rapazes naquilo que mais tarde o repórter da TV Rio chamou de ‘gloriosa barricada’.

Os rapazes arrancam bancos e árvores. Impedem o cruzamento da avenida Atlântica com a rua Joaquim Nabuco.

Mas o general destina-se a missão mais importante e gloriosa: apanha dois paralelepípedos e concentra-se na brava façanha de colocar um em cima do outro.

Estou impossibilitado de ajudar os gloriosos herdeiros de Caxias, mas vendo o general em tarefa aparentemente tão insignificante, chego-me a ele e, antes de oferecer meus préstimos patrióticos, pergunto para que servem aqueles paralelepípedos tão sabiamente colocados um sobre o outro.

– General, para que é isto?

O intrépido soldado não se dignou a olhar-me. Rosna, modestamente:

– Isso é para impedir os tanques do Primeiro Exército!

Apesar de oficial da reserva – ou talvez por isso mesmo -, sempre nutri profunda e inarredável ignorância em assuntos militares.

Acreditava, até então, que dificilmente se deteria todo um exército com dois paralelepípedos ali na esquina da rua onde moro.

Não digo nem pergunto mais nada. Retiro-me à minha estúpida ignorância.

Qual não é meu pasmo quando, dali a pouco, em companhia do bardo Carlos Drummond de Andrade, que descera à rua para saber o que se passava, ouço pelo rádio que os dois paralelepípedos do general foram eficazes: o Primeiro Exército, em sabendo que havia tão sólida resistência, desistiu do vexame: aderiu aos que se chamavam de rebeldes.

Nessa altura, há confusão na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, pois ninguém sabe ao certo o que significa ‘aderir aos rebeldes’.

A confusão é rápida. Não há rebeldes e todos, rebeldes ou não, aderem, que a natural tendência da humana espécie é aderir. (…)”

 

Stendhal descreveu uma cena em que um personagem vê soldados dando tiros, cavalos em disparada, e fica sem saber que estava assistindo à batalha de Waterloo, a queda de Napoleão.

Com o desespero acentuado recentemente, estaríamos vendo a queda de nosso Napoleão, de manicômio?

“… corremos o risco de não termo eleições no ano que vem”, disse o presidente. 

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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