Gerenciar pessoas

Old Charges of Operative Freemasons – THE ANTIQUITY Manuscript – Bibliot3ca  FERNANDO PESSOA

Gerenciar é converter complexidade e especialização em desempenho, diz Joan Magretta.

Este exercício não é fácil, nem para qualquer um. Requer, além de habilidades técnicas e emocionais, o preparo mental para lidar com incertezas e entender o papel da complementariedade no contexto organizacional.

Não se trata, como muitos pensam, de apenas encaixar adequadamente competências especializadas, de se montar um banco de talentos.

Estamos falando de gente, o maior potencial de realizações, mas também de desastres, que se conhece.

Novamente Magretta: “Os gerentes podem estar formalmente encarregados da gerência, mas raramente eles podem controlar o desempenho de alguém, senão o deles mesmo.”

A palavra “controlar” não faz sentido na gestão de pessoas. Essa ideia está há muito ultrapassada. Não é uma visão apropriada pois contraria nossa natureza: somos tudo, menos controláveis.

“As estruturas auto-organizadoras demonstram a existência de novas relações entre autonomia e controle, mostrando que um grande sistema só é capaz de manter sua forma e sua identidade gerais porque tolera altos graus de liberdade individual.” (Margaret Wheatley)

Outra palavra, que citei acima provocativamente, “talentos”, é mero eufemismo. A maioria das pessoas não é talentosa, mas mediana, ou pior, medíocre. Todos temos algum talento, mas raramente naquilo para o que somos pagos para fazer.

Pior que “talentos” é “recursos humanos”, visão economicista, reducionista.

Os empregados são “trabalhadores”, “gente”, “pessoas”, ou alguma expressão melhor, que denomine corretamente o que somos numa organização.

As pessoas devem ser vistas, sim, como um potencial de realizações, se autoestimulada.

O papel do líder é inspirar: instigando, apoiando e propiciando um ambiente respeitoso que fermente a superação.

Uma forma de inspirar é apontar caminhos, desde que se explique os porquês. Não adianta ser impositivo ou controlador; o resultado é, no mínimo, perda de potencialidade.

Ninguém faz algo com prazer se não estiver motivado a fazê-lo. Mas, esse estímulo precisa ser próprio, mesmo que introjetado, interiorizado, por convencimento.

Enquanto não se tem essa convicção, se a causa não se tornar própria, agimos como autômatos, sem alma.

Quando o grupo está imbuído da causa, por adoção, pode-se esperar comprometimento e até cumplicidade no caminhar. Esse é o único antídoto para os sustos, os imprevistos, as incertezas.

Ao falar em “ambiente respeitoso”, refiro-me ao respeito mútuo, mas também ao respeito que a empresa deve ter com o trabalhador, remunerando-o decentemente.

A remuneração adequada não leva ninguém à frente, de fato; só evita que fique atrás.

As ferramentas gerenciais, indicadores, técnicas, revisão de processos etc. são importantes, mas são subsidiárias. São bússolas e outros instrumentos que ajudam o grupo na automonitoração do desempenho.

Muito do que se vê como complexidade interna é só complicação, que pode ser simplificada através da análise dos processos e da redução das ambiguidades dos sistemas de informação.

Uma característica para se ter sucesso na liderança de grupos é gostar de gente, com toda riqueza contida nas diferenças.

Outro aspecto que não deve ser esquecido é saber construir significados.

A estabilidade, o equilíbrio, não deve ser o objetivo de uma organização; ela precisa se inserir na dinâmica econômica e social, atenta ao movimento concorrencial e da percepção dos seus clientes ou consumidores.

“Ao venerar o equilíbrio, ocultamo-nos dos processos que promovem a vida. É, ao mesmo tempo, triste e irônico o fato de que tenhamos tratado as organizações como máquinas, agindo como se fossem mortas, quando, durante o tempo todo, elas têm sido sistemas vivos e abertos capazes de autorrenovação.” (Wheatley)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

2 comentários em “Gerenciar pessoas

  1. Bebi nessa fonte desde cedo. Fui liderado de Dorgival entre 1989 e 1996. Hoje, virou moda chamar de mundo VUCA, mas sempre foi assim nas organizações, onde líderes são aqueles capazes de dar sentido as coisas, reduzir complexidades e conviver com ambiguidades.

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