Em que tempo nós vivemos?

A indústria do medo e sua participação no desenvolvimento de aspectos  não-politizados na sociedade.

Vivemos todos no presente? Não, sabemos. O presente não é onipresente. Por mais que o presente esteja a nosso redor, cobrando nossa atenção e fruição, nossa cabeça está entulhada de pensamentos, ora nostálgicos, ora tristes. Alegrias saudosas, remorsos ou perdas incrustados.

Quando não é o passado a nos alugar, é o futuro a nos convocar.

Desde os gregos fomos avisados que passado e futuro são males que nos desfocam da vida.

O pé no passado, sujo de lama de ressentimentos, arrependimentos, culpas, vergonhas etc. – “paixões tristes” no dizer de Espinosa – debilitam nossa capacidade de respirar o ar presente. Da mesma forma, a recordação perene de momentos felizes nos carrega de nostalgia e nos ilude a pensarmos que “o bom é o que foi”.

O futuro nos aparece, muitas das vezes, como uma quimera, a esperança, detonada pelos estoicos.

O estoicos diziam que a esperança só pode conduzir-nos à ruína: ela não só falseia nossa relação com a realidade presente como a esvazia de seu valor imediato, em benefício de especulações sobre um futuro incerto por definição.

Pensar que as coisas irão melhorar quando mudarmos de carro, de penteado, de calçados, de amigos ou do que quer que seja é a grande ilusão.

Passado e futuro são nada: um não existe mais e o outro ainda não existe. Eles só nos fazem perder a única dimensão real do tempo, o presente, que quase nunca chegamos a habitar.

Nietzsche retoma uma expressão de Marco Aurélio, o imperador estoico: ‘amor fati‘, o amor do que está aqui, presente diante de nós, o amor do destino.

Um dos motivos pelos quais não vivemos plenamente o presente – que deixemos que a vida passe por nós ao invés de passarmos vivos pela vida – é o medo.

Medo é nossa atitude diante do desconhecido ou ignorado. Mas, também, uma predisposição ao cultivo do pavor diante dos desafios da vida.

Segundo Aristóteles, somente quando um ser humano volta a seu “lugar natural”, a ocupar sua posição na harmonia cósmica, pode ele sentir que é um fragmento do cosmos, um leve hálito da eternidade. Isso pode parecer pouco, mas é o que somos.

A pessoa que entender isso – ainda segundo Aristóteles – começa a tornar-se sábia e se torna capaz de vencer os medos, inclusive o da morte, e assim nada mais o impede de habitar serenamente o presente.

“O medo nos torna ao mesmo tempo tolos e malvados. Tolos porque nossos motivos de medo são quase sempre irracionais, quando não totalmente estúpidos.

O medo, também, nos torna egocêntricos, fechados aos outros: sob o domínio do medo, só pensamos em nós mesmos; faríamos qualquer coisa para fugir da ameaça, a ponto de entregar-lhes os outros, e mesmo de sacrificá-los.” (Luc Ferry)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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