Há salvação?

Cornelius Jansen - Alchetron, The Free Social Encyclopedia
(Cornelius Jansenius, 1585-1638)

Brian Greene, físico e matemático, não acredita no livre-arbítrio, essa ideia tão cara aos humanistas. Para ele, “quando reconhecemos que cada ação e decisão nossa são apenas partículas que atravessam o nosso corpo e o nosso cérebro, e que esse movimento é totalmente governado pelas leis da Física, percebemos que não há oportunidade para interferir. Vivemos num universo com leis. O nosso corpo e o nosso cérebro são totalmente governados pelas leis da Física, não há forma de as contornarmos. Nesse sentido, a liberdade que pensamos que temos é uma ilusão.”

Acho que ele confunde o “como” com o “por que?” Reducionismo.

Esse assunto é polêmico, desde há muito tempo, e continua indefinido.

Antes, os argumentos eram teológicos, sem essa história de partículas para lá e para cá. Mas, em jogo, o determinismo e a predestinação.

Santo Agostinho afirmava que a liberdade humana foi atingida pelo “pecado original” resultando numa “queda” do ser humano como um deslocamento da vontade para o nível dos bens temporais, opondo-se à liberdade possível somente no retorno para Deus.

Tal retorno depende do princípio operativo de Deus, chamado de “graça”. Ninguém podia ser continente (abster-se da imoralidade), a menos que Deus lhe desse essa dádiva. Complicado, isso.

Entre os séculos IV e V, houve uma santa discussão entre Santo Agostinho (354-430) e Pelagius (350-423).

Pelágio era mais “liberal”: a graça seria dada igualmente a todos – sem “favorecimentos”, possibilitando a cada um, por meio do livre-arbítrio, a decisão do que fazer (o bem ou o mal). Aliás, Pelágio sequer acreditava nessa história de pecado original, decaimento etc.

Aliás, o problema do pecado adâmico (pecado original, termo criado por Santo Agostinho) tornou-se o centro das atenções da Civilização cristã ocidental, ainda que o legado teológico proveniente do Judaísmo nem sempre tenha enfatizado o pecado de Adão e Eva:

“Embora a narrativa do pecado de Adão e Eva figure
no primeiro livro do Antigo Testamento, o Judaísmo
antigo não centralizou sua teologia sobre o primeiro
pecado. Foi somente nas vizinhanças da Era Cristã
que alguns escritos judaicos (não-canônicos) fazem
remontar a Adão os castigos que pesam sobre a humanidade, mas sem marcar nitidamente a transmissão do estado pecaminoso do primeiro pai à sua raça.” (Jean Delumeau)

Resumindo: Pelágio negava a necessidade da graça e cabia ao homem, por si mesmo, alcançar a salvação. Noutro extremo, Santo Agostinho negava o livre-arbítrio e qualquer mérito do homem na própria salvação, fora da graça, distribuída por Deus segundo a sua soberana vontade, sem levar em conta os méritos ou deméritos da criatura.

Esta posição de Santo Agostinho foi, depois, abraçada pelos calvinistas.

No século XVI, com a Reforma Protestante, essa discussão voltou.

Erasmo de Roterdã e Lutero estão de acordo sobre um ponto: “O céu não está à venda”.

Mas, em 1524, Erasmo escreveu um texto sobre o Livre-Arbítrio, que contrariava a interpretação de Lutero. Um ano depois, Lutero publicou o “Servo Arbítrio” e joga duro contra Erasmo:

“Portanto tu e os sofistas (referindo-se a Erasmo) tratai de apresentar um único mistério qualquer que ainda esteja abstruso nas Escrituras. Todavia, o fato de muitas coisas terem
permanecido abstrusas para muitas pessoas não se deve à obscuridade da Escritura, mas à cegueira ou indolência delas, que não tratam de ver a verdade claríssima, como diz Paulo a respeito dos judeus em 2 Coríntios 4: ‘O véu permanece sobre o coração deles.’”

Lutero argumentava que o pecado deixa os seres humanos incapazes de atuar em prol de sua própria salvação e que, portanto, são completamente incapazes de levar a si próprios até Deus. Por isto, não existe o livre arbítrio para a humanidade porque qualquer arbítrio que os seres humanos possam ter é completamente subjugado pela influência do pecado.

Erasmo achava que não seria razoável jogar no lixo a teologia dos primeiros padres, influenciada pelo estoicismo até os meados do século III d.C., e que considera o homem como parte de uma ideia da totalidade, representada pela ideia de Deus.

O movimento, a energia própria da natureza (Cosmo), era compreendida pelos estoicos como providência, isto é, como Deus presente na natureza. O homem como criatura pertence a essa totalidade, dotado de alma racional, como semente divina e dádiva do Criador.

Para Erasmo, a razão seria uma dádiva de Deus ao homem, e é sua parte hegemônica, que
o faz tender naturalmente em direção ao Criador. A natureza humana, para o humanista cristão não está totalmente separada de Deus, porque cumpre naturalmente seu movimento de retorno ao mundo superior e divino.

Desta forma, o livre-arbítrio seria a vontade racional que, por ser racional, participa da dignidade da imagem que o homem possui de Deus. A natureza humana racional tende para o bem. O mal não existe, é o não-ser da vontade; neste sentido, a razão cessa seu movimento natural e deixa de existir. A alma, quando se fixa no mundo material, não realiza o seu movimento em direção ao mundo superior e divino e não participa da totalidade.

E vai por aí.

Um século depois, o teólogo belga Cornelius Jansenius resolveu reforçar o entendimento de Santo Agostinho sobre o livre-arbítrio.

Ele se opunha, então, ao entendimento dos jesuítas, que ficava no meio do caminho.

Os jesuítas haviam criado a ideia de “graça suficiente”, para diferenciar da “graça eficiente”.

Tentando explicar: Deus concede a graça soberanamente, mas só àqueles que, em Sua onisciência, Ele prevê que farão bom uso dela. A todos os homens, Deus dispensa uma graça suficiente para que se salvem, e os homens, usando sua liberdade, podem recusar; mas, conhecedor dos futuros contingentes, Deus pode prever aqueles que não a recusarão se a receberem, e só a eles conceder a graça eficiente, que efetivamente os salva.

Entenderam? Não sei se é para se entender.

Um dilema: adotar uma concepção da onipotência divina que negue a liberdade humana ou uma noção de liberdade humana que exclua a onipotência divina.

Por outro lado, se é Deus quem escolhe livremente quem será ou não salvo, como pode querer salvar a todos?

Jansenius era a favor do ensinamento de Santo Agostinho, para quem não vale a máxima “querer é poder”.

Na disputa, perde o jansenismo, ganham os jesuítas. Mas, a história não para por aí.

O jansenismo não foi marcado exclusivamente pelo debate sobre o livre-arbítrio: havia uma centralização da moral no pecado, o medo da condenação, os escrúpulos de consciência, a dependência da confissão, moral sexual repressiva …

Esses eventos, tão longes, continuam presentes, inclusive aqui no Brasil, “influenciando profundamente a conduta religiosa, política, social e moral de grande parte de nossa população, impedindo a plena cidadania, tirando a alegria, apagando a esperança e gerando profundos medos”, diz Amarildo José de Melo, doutor em História da Teologia.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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