“… como é fácil se deixar levar” (Morin)

Os esplêndidos 97 anos de Edgar Morin: "Eu sou um filósofo antigo, mas amo  o Twitter" - Instituto Humanitas Unisinos - IHU
(Edgar Morin)

“Entramos na era das grandes incertezas”, diz Morin – que no próximo 8 de julho completará insuficientes 100 anos – querendo nos lembrar que nós, e principalmente os governantes, estamos sem bússola. Aliás, as bússolas indicam: “mudemos de rumo”, há precipícios à frente!

Essa pandemia poderia nos ensinar alguma coisas sobre a solidariedade, a inteligência, o advento da “ecopolítica” e do fim da “tecnoeconomia”, espera.

Pessoalmente, não tenho essa esperança, a de que aprendamos algo sobre o que estamos vivendo. Será visto, acho, como mais um incômodo ao “progresso”, ao nosso domínio completo da natureza! O ser humano é burro; diz que não, mas só acredita em crenças!

“O psiquiatra Boris Cyrulnik demonstrou como um grave trauma pode nos dar, se conseguirmos sobreviver, uma capacidade de resistência que ele define, com um termo emprestado da física, “resiliência”.

Eu resisti desde o nascimento. A menina que se tornaria minha mãe tinha problemas cardíacos por causa da gripe espanhola.

Quando ela se casou, disseram que ela não poderia ter filhos, porque o parto seria fatal para ela.

Ela engravidou pela primeira vez e abortou. Na segunda vez, a abortista clandestina lhe deu produtos que não funcionaram. O feto resistiu. Foi assim que eu nasci. ” (Morin)

A visão centrada no ganho, no lucro, motor do capitalismo, parece nos direcionar para um desastre – visto sempre como evitável, graças à ideia prometeica do progresso: o homem deveria controlar o “progresso”, mas este tornou-se autônomo.

“Prometeu era um dos titãs, uma raça gigantesca, que habitou a terra antes do homem. Ele e seu irmão Epimeteu foram incumbidos de fazer o homem e assegurar-lhe, e aos outros animais, todas as faculdades necessárias à sua preservação.

Epimeteu encarregou-se da obra e Prometeu de examiná-la, depois de pronta.

Assim, Epimeteu tratou de atribuir a cada animal seus dons variados, de coragem, força, rapidez, sagacidade; asas a um, garras a outro, uma carapaça protegendo um terceiro, etc.

Quando, porém, chegou a vez do homem, que tinha de ser superior a todos os outros animais, Epimeteu gastara seus recursos com tanta prodigalidade, que nada mais restava.

Perplexo, recorreu a seu irmão Prometeu, que, com a ajuda de Minerva subiu ao céu e acendeu sua tocha no carro do sol, trazendo o fogo para o homem.

Com esse Dom, o homem assegurou sua superioridade sobre todos os outros animais. O fogo lhe forneceu o meio de construir as armas com que subjugou os animais e as ferramentas com que cultivou a terra; aquecer sua morada, de maneira a tornar-se relativamente independente do clima, e, finalmente, criar a arte da cunhagem das moedas, que ampliou e facilitou o comércio.”

O que era tirocínio virou ciência e crença no progresso – temos que acreditar nalguma coisa, ou em mitos e crendices.

Os mitos atuais são os memes e as “verdades” proclamadas por redes de supostos arautos de valores, apoiadas por “medos” alimentados na ignorância que as bolhas propiciam.

“Se você muda um aspecto na sua vida, a de que a ‘verdade’ não é a autoridade na sua vida, mas que a ‘autoridade’ é a verdade na sua vida, então você desviou a sua consciência e não existirá espaço para o crescimento genuíno porque você se desenraizou da fonte …” (Jaggi Vasudev, conhecido como Sadhguru)

Segundo Morin, uma das grandes lições de sua vida foi deixar de acreditar na sustentabilidade do presente, na continuidade e na previsibilidade do futuro.

Para o pensador, “a história humana é relativamente inteligível a posteriori, mas sempre imprevisível a priori”, como demonstraram a crise de 1929, a ascensão de Hitler e do nazismo na Alemanha, a desintegração da ex-União Soviética e o ataque às torres gêmeas do World Trade Center em Nova York.

Morin está lançando seu livro “Lições de um século de vida”, talvez seu último, no qual, ao invés de louvar seus acertos, aponta seus erros.

Um de seus erros foi seu pacifismo antes da II Guerra, que o impediu de ver a verdadeira natureza do nazismo. Por muito tempo, ele afirma ter ficado esperando que a Alemanha, “o país mais culto da Europa”, eventualmente retornasse à razão.

A razão foi obscurecida pelo fanatismo e nas crenças liberatórias: a culpa é dos outros (judeus), somos superiores, fomos traídos, o comunismo é a ameaça (quando eles eram, de fato, o perigo) … slogans supondo ser razões.

Essa falta de entendimento do manejo político continua e se acentua com as redes sociais.

Onde vamos parar? A cada dia mais se abdica do direito de pensar e se abraça o engajamento no agir pensado por outros!

Vejo pessoas que respeitava abrindo mão do pensar autônomo e se arrastando a ideias toscas e odiosas, divulgadas por uma rede que sabe o efeito de se criar o ódio,

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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