Por que acreditamos em profetas?

As três acusações a Espinosa • Razão Inadequada
(Baruch de Espinosa, 1632-1677)

“Como explicar que uma vida frugal e sem haveres, consumida pela doença, um corpo delgado, frágil, rosto oval e moreno com olhos negros e brilhantes deem a impressão de serem percorridos pela própria Vida, de ter um poder idêntico à Vida?” (Gilles Deleuze, sobre Espinosa)

Baruch de Espinosa teve a ousadia (ou inocência) dos puros ao desafiar o que estava posto para ser adorado ou idolatrado e não questionado. Seu livro “Tratado teológico-político”, publicado em 1670, foi tachado, até, de “um livro forjado no inferno”. Incomodou muita gente.

“Os piores hipócritas, animados pela raiva a que chamam ‘zelo pelo direito divino’, perseguiram por toda parte homens insignes pela sua honestidade e reconhecidos pela sua virtude e, por isso mesmo, malvistos pela plebe, reprovando publicamente as suas opiniões e inflamando contra eles as fúrias da multidão.

E esse abuso descarado, porque se acoberta sob a aparência de religião, não é fácil de reprimir.” (Espinosa)

Pela primeira vez na história, alguém afirmava que a Bíblia era apenas uma obra humana e não poderia ser considerada literalmente a palavra de Deus.

Os profetas eram diferentes dos demais homens? Não. Essa seria a opinião de Espinosa, segundo Jean Maximilien Lucas:

“Os profetas, para o nascimento e as funções ordinárias da vida, estamos de acordo que eles não tinham nada superior ao humano; que eram nascidos de homens e de mulheres; e levavam a vida da mesma maneira que nós.

Porém, quanto ao espírito, sustenta-se que Deus os dirigia por uma inspiração direta e que seu entendimento era bem mais esclarecido do que o nosso.

É preciso confessar que o povo tem muito pendor a se cegar.

Disseram-lhe que Deus amava mais os Profetas que o restante dos homens; que Deus se comunicava com eles de um modo particular; e o povo persuadiu-se disso tão firmemente como se a coisa lhe tivesse sido demonstrada.

E, sem considerar que todos os homens se assemelham, e que todos eles têm um mesmo princípio pelo qual todos os seres são iguais, o povo acreditava que essas pessoas eram de um temperamento extraordinário e feitas explicitamente para espalhar os oráculos de Deus.

Mas, além do fato de que esses Profetas não tinham nem mais espírito do que o comum, nem o entendimento mais perfeito que o restante dos homens, o que, em seus escritos, nos obriga a vê-los daquele modo?

A maior parte do que eles disseram é tão obscura que não se entende, e em tão péssima ordem que bem se vê que eles não se entendiam a si mesmos e eram bastante ignorantes.

A raiz dessa crença que deles se tem é que se gabavam de receber diretamente de Deus tudo o que anunciavam ao povo.

Crença absurda e ridícula, já que eles mesmos confessam que Deus não lhes falava senão em sonhos.

Pois, uma vez que os sonhos são naturais e, além do mais, constituem um estado de torpor, é preciso que um homem seja muito vaidoso ou muito insensato, para se gabar de que Deus lhe fale nesses momentos, e que aquele que põe fé nisso seja muito crédulo ao acreditar, contra toda evidência, que sonhos são oráculos.

E, mesmo pressupondo-se que Deus tenha falado com alguém por sonhos, por visões, ou por outras vias, ninguém, entretanto, deveria ser levado a acreditar nisso, porque haveria sempre razões para recear que esse homem tivesse sido enganado por algum impostor, ou tivesse criado uma ilusão para si mesmo, ou, enfim, que houvesse planejado enganar os outros.

Também vemos que, na antiga Lei, não se tinha pelos Profetas tanta estima quanto se tem hoje.

Quando os soberanos ficavam cansados da tagarelice desses Profetas – a qual tendia na maioria das vezes a desviar o povo da obediência devida a seus legítimos reis – eles (os Profetas) eram calados por diversos suplícios. (…)”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

2 comentários em “Por que acreditamos em profetas?

  1. Dorgival , não existe mais profecias. A bíblia é clara. É invenção de quem.quer ganhar dinheiro fácil. Após o advento do Messias não tem mais profecias
    Profetas duraram ate o velho testamento.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: