“Os céus nos usam assim como nós usamos as tochas: não as acendemos para que se iluminem a si mesmas.”

“Breve é a vida, longa é a arte”, dizia Hipócrates (460-377 a.C.). A vida é um sopro – divino ou não – e se dissipa; a arte, criada pelo mortal, vence a morte e imortaliza seu criador.

Shakespeare morreu em 1616, há 405 anos, aproximadamente 15 gerações atrás, mas sua obra está presente nos nossos dias. Não importa quem foi Shakespeare, se histórico, lenda ou mito. Eu, como tantos, fui visitar sua casa (ou templo) em Stratford-upon-Avon.

Em 1604 ele estreou Medida por Medida, uma comédia-trágica. Uma tragédia, com gotas de comédia – para agradar aos nobres, que ficavam nos assentos mais elevados do Globe Theatre e a ralé, que ficava no piso. Cultura é universal, embora nem todos tenham a mesma capacidade (cabedal) de entendimento – a linguagem deve ser adequada a cada público. Daí, dá para entender o funk.

“… todo o extremismo, toda a cruzada intransigente, toda a forma de fanatismo em Sha­kespeare acaba, mais tarde ou mais cedo, em tragé­dia ou em comédia. No final, o fanático nunca está mais feliz ou mais satisfeito, ora morrendo ora con­vertendo-se em bobo.” (Amos Oz)

Shakespeare está certo: veja o Brasil, onde comédia e tragédia se entrelaçam, movidas por fanatismo.

A peça Medida por Medida trata de assuntos que não desaparecem: os conceitos de justiça e sua corruptela, a corrupção; equidade e abuso de poder (que só se conhece quando se assume o poder – esse deturpador de suposto bom caráter ou revelador de intenções sublimadas); e, da castidade e volúpia (o desejo, tão condenado, como se não fosse uma das forças da natureza).

O nome da peça está explicado numa fala: “A pressa sempre recompensa a pressa, e com morosidade é que se responde à morosidade. Uma coisa só fica quite com coisa igual, sempre medida por medida.”

Essa expressão remonta à Bíblia (Mateus 7, 1-2): “Não julgueis para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais sereis julgados, e com a medida com que medis sereis medidos.”

Bom, do que se trata? Um duque afasta-se de suas funções – por achar que era conivente com transgressões que moralmente eram insuportáveis na época – e entrega essas atribuições a um “incorruptível”, um Ropespierre da época: Ângelo, seu substituto.

“Nós o elegemos para poder aterrorizar, para pode vestir-se com a indumentária de nossos melhores sentimentos … “

Esse padrão de moralidade era Ângelo. Olha o nome! Um anjo.

A moral anda sempre ao lado do que se ‘supõem’ que seja correto – do ponto de vista social. O apego exagerado à moral (“e aos bons costumes”) gera o fanatismo.

A essência do fanatismo reside no desejo de obrigar os outros a mudar”, dizia Amos Oz.

Mas, nesse drama, o juiz dito incorruptível se descobre vencido pelo sexo e invoca a sua imunidade quando ameaçado de denúncia.

Que importaria a denúncia contra alguém todo-poderoso, se ninguém iria acreditar na palavra do denunciante?

Cláudio, um nobre, é condenado à forca por engravidar uma mulher: “Pois não é que o arrastaram para a prisão? ” /”- Bom, mas o que ele fez?”/ “Fez um filho.”/ “Mas, e qual é o crime?”.

Ele ainda não era casado. Não importa que Julieta, que terá um filho, tenha consentido e, que o filho nasça sem pai. O pai será o exemplo.

“Se a tirania está no próprio assento ou na eminência que toma assento, não sei dizer”, comenta Cláudio.

Sua irmã, a noviça Isabella, intercede por ele. Ângelo fica apaixonado pela moça.

“Será possível que a modéstia e o recato conseguem atiçar nossos desejos mais do que uma mulher depravada?”, pergunta-se.

Fica perturbado com seus sentimentos: “Quando os próprios juízes roubam, os ladrões têm justificação para roubar”.

“Minha postura solene e digna, da qual me orgulho, eu poderia com vantagem trocá-la por uma pluma ociosa, que se bate com o vento por razão nenhuma. Ah, decoro, ah, dignidade, quantas vezes tu com tua máscara, tu com teu figurino arrancas temor dos tolos e amarras as almas mais sábias à tua aparência falsa!”, duvida de sua impostação.

Cai a máscara, começa o assédio, a chantagem.

“- Vou te denunciar, Ângelo!”, protesta Isabella.

“- E quem vai te acreditar, Isabella? Meu nome imaculado, a austeridade de minha vida, uma declaração formal minha contra você e minha posição no governo vão pesar tanto, mas tanto mais, que a sua acusação vai sufocar em suas próprias palavras e cheirar a calúnia. (…)”

O duque, entretanto, estava na cidade, no papel de um frade. Na prisão, conversa com Cláudio. Shakespeare, então, expressa sua visão sobre a vida:

“Decida-se totalmente pela morte. Assim, tanto a morte como a vida serão mais suaves.

Argumente assim com a vida: se eu te perder, perco uma coisa que ninguém, a não ser os tolos, quer preservar.

Não passas de respiração e és servil a todas as influências dos astros que a toda hora afligem esta morada onde habitas.

Não há dúvida: és brinquedinho da morte, e para ela tu te esforças o tempo todo no sentido de dela escapar e, ainda assim, estás sempre correndo em direção a ela.

Não és nobre, pois todas as comodidades que trazes contigo são alimentadas por mesquinharias; não és de modo algum valente, pois tens medo da língua macia de uma pobre cobra.

O sono é o teu melhor descanso, muitas vezes provocado; e, no entanto, tens pavor intenso da morte, que não passa de um sono.

Tu não és tu mesma, pois existes em milhares e milhares de grãos que vêm do pó.

Feliz tu não és, pois o que ainda não tens tu lutas por obter e, quando consegues, esqueces que tem.

Tu não és constante, pois teu aspecto revela as mudanças de estranhos efeitos por que passas conforme as fases da lua.

Se és rica, tu és pobre, pois, como um jumento que tem as costas vergadas por barras de ouro, tu carregas tuas pesadas riquezas por uma jornada só, e a morte encarrega-se de te descarregar.

Amigos, tu não tens nenhum, pois teus próprios filhos, que te chamam de Vossa Senhoria, frutos de teu ventre, amaldiçoam a gota, o herpes e o catarro por não darem cabo de ti mais cedo.

Não tens juventude nem idade, mas sonhas com ambas, como numa sesta depois do almoço, pois toda tua abençoada juventude torna-se velha e sai a mendigar por esmolas para velhos entrevados.

E quando tu és velha e rica, não tens vigor nem paixão, não tens agilidade nem beleza, nada que torne prazerosa a tua fortuna.

O que é mesmo que tem aí que atende pelo nome de vida?

Contudo, nessa vida escondem-se mais de mil mortes; e no entanto, tememos a morte, que vem nivelar tantas desigualdades.”

Paro por aqui, para não entregar o desfecho.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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