Paraguassú

(Paraguassú, 1890-1976)

Não se trata de gostar ou não; trata-se de manter a memória.

Quem foi Paraguassú? Duas gerações atrás, essa pergunta não seria levada a sério.

Paraguassú era um ídolo da nossa música, e um pioneiro, presenciou e participou do nascimento da disseminação da cultura popular através da música.

Ele foi o primeiro artista musical paulistano a gravar discos e cantar em emissora de rádio de São Paulo, conseguir fama nacional mantendo-se radicado em sua “provinciana” cidade e provar que artistas de qualidade e sucesso não eram exclusividade do Rio, que atraía os melhores do país.

E, nunca houve, em todos os tempos, artista mais paulistano que Paraguassú – talvez Adoniran Barbosa (embora este tenha abraçado o samba e o paulistanizado).

A São Paulo de Paraguassú era italianíssima. Ele próprio era italianíssimo. Seu nome era Roque Ricciardi. Mas, ele foi uma das pessoas que mais colaboraram para a “desitalinização” de São Paulo.

Até por isso criou o nome artístico de Paraguassú – que grafou com dois esses para tornar “masculino” o termo e não haver confusão com Paraguaçu, a tupinambá esposa de Caramuru.

Era, naturalmente, outra época. O tempo não corria, andava ou vagava. Não era a loucura atual – até os problemas eram mais duradouros, embora, como sempre, na sua maioria, ficcionais.

Tempo de serenatas. Dá para imaginar? O seresteiro encostado na esquina sob a luz mortiça do lampião de gás, agasalho contra o frio e a garoa na sua capa, tangendo as cordas de seu violão, cantando, apaixonado – como se apaixonava! – modinhas lânguidas, torcendo para que uma luz fosse acesa ou que a pretendente surgisse na janela.

“Era a seresta, a passos cadenciados,

cantando aos violões sentimentais,

o canto sonhador dos namorados

que antecipava as marchas nupciais!” (Paraguassú)

Em 1974, no programa Ensaio, de Fernando Faro, ele contou que a modinha “Máguas” (mágoas), um de seus primeiros sucessos, levou a uma onda de suicídio.

Voltem no tempo, escutem a canção “Perdão, Emília“, um sucesso de Paraguassú. Macabro, mas assim era a prova de paixão – Eros e Tânatos abraçados:

“Já tudo dorme

Vem a noite em meio

À turva lua

Vem surgindo o alento

Tudo é silêncio

Só se vê na campa

Piar o mocho de cruel desdém (…)

Monstro tirano

Pra que vens agora?

Lembrar-me as mágoas

Que eu por ti passei?

Lá nesse mundo

Em que eu vivi chorando

Desde o instante em que eu te vi

Te amei

Perdão,

Emília

Se roubei-te a vida

Se fui um burro,

fui cruel, ousado

Perdão, Emília

Se manchei teus lábios

Perdão, Emília

Para um desgraçado”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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