Viver é aprender a conjugar o verbo perder (Bishop)

Elizabeth Bishop e Lota Macedo Soares
(Elizabeth Bishop, 1911-1979)

Elizabeth Bishop parou, acidentalmente, no Brasil; ficou por mais de 15 anos. Apaixonou-se pela geografia e por Lotta (Maria Carlota Costallat de Macedo Soares), arquiteta e paisagista. O desenlace é trágico – Lotta morreu de overdose durante uma visita à ex-amante, em Nova Iorque.

Era mais uma tragédia na vida de Elizabeth: seu pai morreu antes que ela completasse um ano e, sua mãe, afundada pela dor, não tardou a ser internada num manicômio e a desaparecer por completo da sua vida. Foi criada nas casas de tios. Um desses, a submete a abusos.

Por isso, achava que viver é aprender a conjugar o verbo perder: “Perca um pouco a cada dia. / Aceite austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. / A arte de perder não é nenhum mistério”.

Apaixonada pela paisagem brasileira, imaginou a reação dos portugueses ao chegar por aqui.

BRAZIL, JANUARY 1, 1502

“Janeiros, a Natureza saúda nossos olhos

assim como deve ter dado vivas aos deles:

cada polegada forrada de folhagens,

folhas grandes, folhinhas miúdas, folhas gigantes,

azuis, verde-azuladas, e verde-oliva,

aqui e ali umas nervuras e pontinhas finas,

ou fundos de seda voltados para cima;

samambaias monstruosas,

com contornos cinza-prateados,

e flores, também, tais como imensos lírios d’água,

suspensas no ar – altas, pendendo das folhagens –

vermelhas, douradas, dois tons de amarelo, róseas,

um uivo de ferrugem e um branco azinhavrado;

sólidas mas flutuantes; frescas como se tiradas das formas

assim que concluídas. (…)

Foi assim que os cristãos, sólidos como aço,

frágeis como louça, as armaduras cintilando

e rangendo, chegaram achando tudo

um tanto familiar:

nenhum beco dos namorados, nenhum caramanchão

sem cerejas para se colher, nem música de harpas,

mas parecido, no entanto,

com um velho sonho de abundância e de luxúria (…).

Eles se puseram a rasgar o cortinado vegetal,

cada qual buscando uma índia para si –

aquelas moçoilas que iam se chamando umas às outras

(ou eram os passarinhos que tinham acordado?)

enquanto sumiam mais e mais fundo na floresta.”

Espaço Ecologico No Ar - Mudanças climáticas poderão extinguir 10% dos  anfíbios da Mata Atlântica

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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