“Sê plural como o universo” (Pessoa)

Templo Cultural Delfos: Fernando Pessoa - o poeta de múltiplos eus

Senhor, meu passo está no Limiar (Fernando Pessoa)

Senhor, meu passo está no Limiar

Da Tua Porta.

Faz-me humilde ante o que vou legar…

Meu mero ser que importa?

Sombra de Ti aos meus pés tens, desenho

De Ti em mim,

Faz que eu seja o claro e humilde engenho

Que revela o teu Fim.

Depois, ou morte ou sombra o que aconteça

Que fique, aqui,

Esta obra que é tua e em mim começa

E acaba em Ti.

Sinto que leva ao mar Teu Rio fundo

– Verdade e Lei –

O resto sou só eu e o ermo mundo…

E o que revelarei.

A névoa sobe do alto da montanha

E ergue-se à luz

O claro cimo que a Tua luz banha

Sereno e claro e a flux

Eu quero ser a névoa que se ergue

Para te ver

A humanidade sofredora é cega –

O resto é apenas ser…

(16-11-1915)

É difícil, claro, compreender o que se entende por União com Deus (Fernando Pessoa)

“É difícil, claro, compreender o que se entende por União com Deus, mas pode dar-se uma certa ideia do que isso quer dizer.

Se presumirmos que, qualquer que tenha sido o modo (independentemente do erro do uso de um tempo verbal que implica tempo) como Deus criou o mundo, a substancia dessa criação foi a conversão, efetuada por Deus, da sua própria consciência na consciência plural dos seres separados.

O grande clamor da Divindade Indiana “Oh, pudesse eu ser muitos!” dá a ideia, sem a ideia de realidade.

A união com Deus significa, portanto, a repetição pelo Adepto do Ato Divino de Criação pelo qual ele é idêntico a Deus em ato ou em modo de ato, mas, ao mesmo tempo, uma inversão do Ato Divino pelo qual ele continua a estar separado de Deus ou a ser o oposto de Deus; se não, seria o próprio Deus e não seria necessária qualquer união.

O Adepto, se conseguir a unidade entre a sua consciência e a consciência de todas as coisas, se conseguir transformá-la numa inconsciência (ou inconsciência de si próprio) que é consciente, repete dentro de si o Ato Divino que é a conversão da consciência individual de Deus na consciência plural de Deus em indivíduos.

Mas, assim, ele alcança a pluralidade que Deus atingiu quando da feitura do todo de que ele é parte e, ao repetir o Ato de Deus, ele está realmente a invertê-lo, e, ao invertê-lo, a fazer o caminho de regresso a Deus e, assim, a alcançar a união com Deus.

Se representarmos todo este esquema por dois triângulos equiláteros com a mesma base, cada um, por assim dizer, oposto ao outro, teremos uma ideia clara, ou tão clara quanto possível, do método da obtenção da União com Deus.

Deus, vértice do triângulo superior, abre para a base e a base estreita-se até ao vértice virado para baixo do triângulo inferior. Do vértice do triângulo inferior há ascensão para a linha base de ambos: assim a descida de Deus é repetida no sentido ascensional e, ao mesmo tempo há ascensão para Deus.

Ora isto, seja qual for o modo por que seja considerado, conduz-nos à teoria peculiar dos três tipos de consciência: a Consciência Divina, a Consciência do Mundo e a Consciência Individual.

Na primeira a identidade é absoluta, não havendo sujeito nem objeto. Na segunda o sujeito fez de si o seu próprio objeto, e, sendo infinito porque indivisível, torna-se objetivamente infinito, isto é, infinito porque infinitamente divisível. Na terceira, o sujeito fez de si mesmo como objeto o seu próprio sujeito, e tomou consciência de si próprio e, por conseguinte, consciência de si próprio em cada elemento infinitesimal desse objeto.

Quanto mais cada sujeito infinitesimal faz de si próprio objeto para si próprio, mais se aproxima do primeiro passo à retaguarda em direção à Suprema Consciência. De aqui passará eventualmente à anulação disto e ao regresso ao estádio original da Divina consciência.”

(Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética – Fragmentos do espólio)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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