Incendiário

O frei que incendiou Florença - ISTOÉ Independente
(Girolamo Savonarola, 1452-1498)

Savonarola quis incendiar Florença; morreu na fogueira.

Cheio de ‘boas’ intenções, radicalizou o desapego às coisas materiais: queimou muitas obras de arte e tudo que considerasse produtos da vaidade humana, luxo desnecessário ou de natureza imoral ia para o fogo. Eram as “fogueiras da vaidade”.

Com seu discurso “flamejante”, tinha então apoio popular. O povo (parte) sempre apoia extremistas: devem estar tocados por alguma “graça”. Os loucos, também.

Vejam só: no início era um pregador da paz e mediador de conflitos. Depois, foi dominado por “dons proféticos”. Profetismo apocalíptico! Anunciava a vinda de um Anticristo, o castigo divino, o fim dos tempos e pregava a “moralização” dos costumes e das instituições. Controverso, ao extremo.

Mas, nem tudo era extravagância. Aproximou-se dos humanistas da cidade e passou a preocupar-se com a criação de uma forma estável de governo.

Tornou-se, então, um dos responsáveis pelas reformas políticas que deram a Florença uma nova constituição e um governo republicano com ampla participação do povo. Seria uma nova Jerusalém: o novo centro do cristianismo no mundo.

Sua “inflamada” pregação deu munição aos inimigos – o principal deles, o papa Alexandre VI (Rodrigo Borgia – uma figura!) – o excomungou e, terminou seus 46 anos numa fogueira.

Pouco antes de sua morte publicou o “Tratado sobre o Regime e o Governo da Cidade de Florença”, no qual defende a democracia e os direitos civis.

Eis um resumo do capítulo “O que os cidadãos devem fazer para aperfeiçoar o governo civil”:

“Primeiro, o temor de Deus, pois é certo que todo reino e todo governo, assim como qualquer outra coisa, procede de Deus, sendo ele a causa primeira que a tudo governa. (…)

Segundo, seria necessário que amassem o bem comum da cidade e que quando estivessem nas magistraturas deixassem de lado todas suas propriedades e os interesses de parentes e amigos e tivessem olhos voltados exclusivamente para o bem comum. (…)

Terceiro, seria necessário que os cidadãos se amassem mutuamente, deixassem todos os ódios e esquecessem todas as injúrias dos tempos passados, porque o ódio e os maus afetos e as invejas cegam o olho do intelecto e não o deixam ver a verdade. (…)

Quarto, seria necessário que praticassem a justiça, porque a justiça liberta a cidade de homens maus ou os faz manterem-se no temor, e os bons e justos tornam-se superiores (…)”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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