“Você escreveu suas memórias na esperança de ser lido”

(Anita Soares Pequeno, doutoranda em Sociologia)

DESABAFOS DE UMA DOUTORANDA (texto de Anita Soares Pequeno)

“Hoje precisei parar a pesquisa para chorar copiosamente por alguns minutos.

Já faz tempo que venho estudando sobre a vida do abolicionista André Rebouças, mas há, mais ou menos, um ano dei início a um mergulho profundo: a leitura atenta de seus Diários.

É um trabalho exaustivo e, aparentemente, interminável… mas é, sobretudo, um trabalho emocionante.

É um desafio imenso se conectar às memórias íntimas de alguém.

É muito difícil exercer os rigores metodológicos que a Academia impõe quando você se sente tão íntima e tão conectada ao ser humano sobre quem estuda.

Muitas vezes me pergunto que pretensão é essa de querer transformar em algo objetivo a história de vida de alguém.

É pretensioso sim ousar querer saber mais do que ele mesmo sobre sua própria vida.

A verdade é que nunca saberei mais do que ele e hoje, ao me emocionar tanto, entendi o porquê.

Hoje eu li sobre a morte de seu amado irmão Antônio. Eu não esperava ler sobre sua morte tão precoce. Isso me arrebatou.

Talvez por eu mesma ser muito próxima aos meus irmãos e conseguir ter esse nível de empatia com Rebouças.

Talvez por, na minha ilusão, julgá-lo meu amigo íntimo que me confidencia seus segredos: me dói muito saber o quanto a vida lhe foi amarga e injusta.

Ao ler sobre a morte de Antônio, também concluí que jamais poderei colocar em palavras quem foi André.

Ele hoje me disse que estava vivendo um dos dias mais tristes de sua vida. Eu chorei com ele e tive certeza que é impossível traduzir sua dor, seus conflitos, sua história.

Esse fragmento de sua biografia, a morte de seu irmão, me deixou sem palavras.

Me aflige a dúvida sobre se vou conseguir honrar a sua memória. Hoje ao menos tive a certeza de que o meu trabalho jamais prescindirá da emoção.

O que senti hoje me inspirou a saber que eu escreverei não para falar por você ou, meramente, sobre você; escreverei para falar sobre mim e sobre o que você me causa, os impactos profundos que você acarretou em minha vida e a minha admiração infinita pelo homem que você foi. 

Vou escrever a minha versão sobre você, um ser humano marcado por tantos conflitos, tantas dores e tantas lutas.

Você escreveu suas memórias na esperança de ser lido; eu sinto isso muito forte e todos os dias sinto como se estivéssemos conversando.

Você me faz rir e chorar, me faz questionar tudo que aprendi até hoje, me desafia a tentar te entender, me impulsiona a querer conhecer sempre mais o contexto que te circundou.

Às vezes, você também me aborrece e entristece e é aí que lamento que nosso diálogo seja tão unilateral. Queria poder te dar umas broncas.

A verdade é que sua vida fez a diferença. Você lutou incansavelmente pelo que acreditava e sua contribuição para a nossa história ainda é pouquíssimo conhecida.

Nós sabemos o porquê. Você morreu extremamente consciente disso. Consciente de que o racismo, por mais que você tentasse negar, foi determinante na sua trajetória.

Daí a minha certeza de que honrar sua memória é, sobretudo, uma questão de justiça.”

(André Rebouças, engenheiro, inventor e abolicionista, 1838-1898)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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