Contos Salva-Vidas

(Os Embaixadores, Hans Holbein, o Jovem, 1533)

Contos Salva-Vidas (Rivka Galchen)

“Dez jovens decidem entrar em quarentena longe de Florença.
O ano é 1348, época da peste bubônica. Os infectados desenvolvem protuberâncias na virilha ou nas axilas, seguidas de manchas escuras espalhadas pelo corpo.
Dizem que alguns aparentam saúde no café da manhã, mas, lá pela hora do jantar, já estão dividindo um prato com seus ancestrais em outro plano.
Porcos selvagens farejam e dilaceram os trapos dos cadáveres, e, em seguida, estes animais têm convulsões e morrem.

O que esses jovens fazem, após escapar de um sofrimento e um horror indescritíveis? Eles comem, cantam e se revezam contando histórias uns aos outros.
Em uma delas, uma freira veste por engano as calças do amante na cabeça, como se fosse uma touca. Em outra, uma mulher de coração partido cultiva manjericão num vaso que contém a cabeça decepada de seu amante.
A maioria das histórias é boba, algumas são tristes, e nenhuma delas é centrada na peste.

Esta é a estrutura do Decamerão de Giovanni Boccaccio, um livro aclamado há quase setecentos anos. Tudo indica que Boccaccio, ele mesmo de Florença, tenha começado a escrever o Decamerão em 1349, mesmo ano em que seu pai faleceu, provavelmente em decorrência da peste. Ele concluiu o livro em poucos anos.

Inicialmente, a obra foi lida e adorada pelas mesmas pessoas que assistiram à morte de quase metade de seus conterrâneos.
As histórias do livro, em sua maioria, não são novas, mas antigos contos conhecidos reencarnados.

Boccaccio termina o Decamerão com uma piada sobre como alguns leitores podem considerá-lo um homem de peso, mas, como explica, ele é tão leve que flutua na água. O que pensar de tanta jocosidade num momento desses?

Em meados de março, eu e vários outros assistimos a dois pinguins-de-penacho-amarelo passeando livremente pelo Shedd Aquarium, em Chicago.
Wellington, o pinguim, encantou-se com as belugas. Embora naquele momento talvez eu já tivesse lido dezenas de artigos sobre o novo coronavírus, foram aqueles curiosos pinguins isolados que fizeram com que a pandemia me parecesse real emocionalmente, por mais que os vídeos também me fizessem sorrir e fossem um alívio em meio às ‘notícias’.

Em maio, três pinguins de Humboldt visitaram os corredores estranhamente vazios do Museu de Arte Nelson-Atkins, em Kansas City, e se demoraram diante das pinturas de Caravaggio. Os próprios pinguins tiveram um certo assombro com a arte – a revelação de uma realidade que sempre esteve presente, mas, paradoxalmente, escondida por trás de tanta informação.

É fácil não reparar na realidade, talvez por olharmos para ela o tempo inteiro.
Minha filha de seis anos teve pouco a dizer e poucas perguntas a fazer a respeito da pandemia, exceto por, vez ou outra, propor um plano: partir o coronavírus em um milhão de pedacinhos e enterrá-lo no solo. Ela acha essa ‘história’ perturbadora demais para se pensar diretamente.

Mas, quando as notícias mostraram equipamentos de proteção individual, seus bonecos passaram a vestir armaduras feitas de embalagens de papel-alumínio, barbante e fita adesiva. Mais tarde, eles foram embrulhados em bolinhas de algodão. Envolveram-se em batalhas detalhadas que eu não conseguia compreender.
Em momentos mais silenciosos de leitura, minha filha desenvolveu uma obsessão pela série Wings of Fire, em que jovens dragões trabalham para cumprir a profecia de que darão um fim à guerra.

Quando temos uma história radical, verdadeira e importante acontecendo a cada instante, por que recorrer a contos imaginários?
‘A arte é o que torna a vida mais interessante do que a arte’, observou o artista francês do movimento Fluxus, Robert Filliou, em um de seus trabalhos, sugerindo que não enxergamos a vida à primeira vista.

É como se ela fosse uma daquelas ilusões de ótica, tal qual a caveira na pintura Os Embaixadores, de Hans Holbein, o Jovem, que só é percebida quando o observador fica de lado – vista de frente, pode ser confundida com madeira, ou nem sequer notada.

No italiano de Boccaccio, a palavra novelle significa tanto notícias quanto contos. As histórias do Decamerão são notícias em um formato que os ouvintes podem acompanhar. (A regra da quarentena dos jovens era: nada de notícias de Florença!)

A primeira história é um relato cômico de como lidar com um futuro cadáver; a comédia serve de amparo para a catástrofe que é familiar demais para ser compreendida.

Mas, ao longo do Decamerão, o tom e o conteúdo das histórias que os jovens contam uns aos outros vão mudando. Os primeiros dias são, sobretudo, de piadas e irreverência. Então, no quarto dia, temos dez histórias seguidas com a temática do amor trágico. No quinto: histórias de amantes que, após terríveis acidentes ou infortúnios, encontram a felicidade.

Boccaccio escreve que, durante a peste negra, o povo de Florença parou de lamentar ou chorar pelos mortos. Após alguns dias afastados, os jovens contadores de histórias de sua obra são enfim capazes de chorar, em tese pelos contos imaginários de amor trágico, mas mais provavelmente por seus próprios sentimentos.

O paradoxo das histórias escapistas de Boccaccio é que, no fim das contas, elas levam os personagens e os leitores de volta àquilo do qual fugiram.

Os primeiros contos se passam em diversas épocas e locais, enquanto os últimos são muitas vezes ambientados na Toscana, ou até mesmo especificamente em Florença.
Os personagens das histórias passam por dificuldades mais contemporâneas e reconhecíveis.

Um juiz florentino corrupto tem suas calças arriadas por baderneiros – todo mundo ri. Um homem simplório chamado Calandrino é enganado e injustiçado repetidas vezes – será que deveríamos rir?
No décimo dia, ouvimos contos daqueles que se comportam com uma nobreza quase inimaginável diante de um mundo visivelmente cruel e injusto.
Emocionalmente seguros – é só uma história, afinal – os personagens sentem esperança.

A série de histórias de Boccaccio, contadas sob determinada expectativa, era em si uma antiga estrutura renovada.

Em ‘As mil e uma noites‘, a estrutura é criada a partir de Scheherazade contando histórias ao marido, o rei. Se ele se cansar, matará Scheherazade, assim como fez com as esposas anteriores.

As histórias dentro da história de Panchatantra apresentam personagens – muitas vezes animais, por vezes pessoas – enfrentando dificuldades, dilemas e guerras.

Em todos esses casos, os contos, de uma forma ou de outra, são salvadores, ainda que o entretenimento seja uma das principais maneiras pelas quais eles podem salvar uma vida.

Ler histórias em tempos difíceis é um modo de compreender esses tempos, além de uma ferramenta para seguir em frente.

Os jovens do Decamerão não deixaram a cidade para sempre. Após duas semanas afastados, decidiram voltar. Voltaram não porque a peste fora erradicada – não havia nenhum motivo para que acreditassem nisso. Eles voltaram porque, tendo rido e chorado e imaginado novas regras para viver, foram então capazes de, enfim, enxergar o presente e pensar no futuro.

A novelle de seus dias de ausência tornaram as novelle de seu mundo, ao menos por um instante, novamente vívidas.

Memento mori – lembre-se de que é preciso morrer – é uma mensagem valiosa e necessária para tempos normais, quando podemos nos esquecer.
Memento vivere – lembre-se de que é preciso viver – é a mensagem do Decamerão.”

(Este texto é a Introdução do livro “O Projeto Decamerão”, uma seleção de contos da New York Times Magazine)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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