“Os detentores do poder ficam tão ansiosos por estabelecer o mito da sua infalibilidade que se esforçam ao máximo para ignorar a verdade”. (Boris Pasternak)

(Ariano Suassuna, 1927-2014)

Em 1997, Ariano Suassuna escreveu a seguinte carta para o amigo Francisco Brennand:

“’É preciso cerrar os dentes e compartilhar a sorte do nosso país’, escreveu, um dia, o grande poeta que foi Bóris Pasternak

Era um tempo em que sua pátria, a Rússia, vivia a opressão violenta, aberta e declarada do Stalinismo.

Hoje, o Stalinismo acabou, Pasternak morreu, mas sua obra está viva e cresce todo dia, revelando-se cada vez mais como profética.

Entretanto, a impostura, a opressão hipócrita do Capitalismo, a ditadura do consumo, da vulgaridade e do gosto médio imposto como modelo através dos meios de comunicação de massa, essa ditadura branca está fazendo algo talvez pior do que oprimir a pátria de Gogol e Dostoiévski, primeiro traída por Gorbachev e depois aviltada por Bóris Yeltsin.

Lembro-me de algumas palavras de Michelet, que li na adolescência e que copiei fazendo interiormente a promessa de nunca me esquecer deles:

A pessoa humana é coisa sagrada. Na medida em que uma nação assume o caráter de pessoa e se torna uma alma, sua inviolabilidade aumenta na mesma proporção. O crime de violar a personalidade nacional torna-se, então, o maior dos crimes. Assassinar um homem é crime. Que coisa terrível não será, portanto, assassinar uma Nação? Como qualificar tal monstruosidade?

Pois bem, existe uma coisa pior do que matá-la: envilecê-la, abandoná-la ao desprezo e aos insultos estrangeiros, violá-la e roubar-lhe a alma e a honra. Este crime é o único para o qual não deveria existir prescrição.

Tornei-me amigo do artista gênio que é Francisco Brennand no ano de 1945, quando ele se preparava para expor seus quadros e eu para publicar meus poemas. Logo nos primeiros dias de uma amizade que dura desde aquele ano, ele fez uma ilustração para o poema Noturno, publicado alguns meses depois, em outubro.

Desde esse tempo, não digo que tivéssemos consciência daquilo que vai aqui afirmado. Mas na noite criadora da vida pré-consciente do intelecto (noite talvez mais clarividente do que a luz da razão reflexiva), nós dois procurávamos escrever ou pintar como se a sorte do nosso país dependesse do que fizéssemos.

Não sendo políticos, era e é o mais que podemos fazer: indicar com o que fazemos ou tentamos no campo da Arte, o caminho para uma Teoria do Poder que, expressando o que nosso povo tem de melhor, esboce o contorno do mapa capaz de definir nosso país como Nação.

Infelizmente, o apelo contido nos meus balbucios e na obra de Brennand não está sendo ouvido, assim como o de Pasternak também não foi ouvido na Rússia. Estão aviltando nosso povo, violando e roubando a alma e a honra do nosso país. Não importa.

Fiéis ao sonho da nossa juventude, dentro das minhas medidas venho fazendo o que posso; e ele ergueu em sua Oficina um monumento imperecível, no qual as gerações que vão nos suceder poderão pelo menos enxergar a face do Brasil verdadeiro e profundo, o Brasil ‘que poderia ter sido e que não foi’”.

(Francisco Brennand, 1927-2019)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

2 comentários em ““Os detentores do poder ficam tão ansiosos por estabelecer o mito da sua infalibilidade que se esforçam ao máximo para ignorar a verdade”. (Boris Pasternak)

  1. Parabéns Dorgival por suas reflexões,matérias e pesquisas nas mais diversas áreas do conhecimento! E que a evolução deste “Balaio” seja cada dia mais relevante, ascendente e conhecido nós muitos cantos do País. Evoe;

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