Um itinerário

(Eneida de Villas Boas Costa de Moraes, 1904-1971)

A paraense Eneida de Moraes foi jornalista, escritora, militante política e pesquisadora brasileira.

Um pessoa infame (de má fama) por enfrentar regimes autoritários e manter a coragem de defender ideias comunistas. Não defendo suas ideias, claro, mas sua renitência é impressionante: 11 prisões durante o Estado Novo, com direito a torturas, clandestinidade e exílio.

“Considero-me uma mulher profundamente feliz, sei o que sou porque cedo tomei posse de meu destino e pela estrada escolhida caminho sem desfalecimentos” (Eneida)

Seu pai era um caboclo amazonense que enriqueceu no período do apogeu da borracha; costumava contar-lhe lendas amazônicas, que se somavam às histórias infantis narradas por sua babá francesa.

Aos oito anos foi matriculada num internato de freiras em Petrópolis (RJ), onde permaneceu até os 13 anos.

Decidida a entrar para o Partido Comunista, em 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, deixando marido e dois filhos em Belém.

Tornou-se amiga de intelectuais como Murilo Mendes, Cícero Dias, Manuel Bandeira, Aníbal Machado, Raquel de Queirós e Sérgio Buarque de Holanda. Escrevia crônicas e poesia.

Uma crônica. A narradora havia saído com um amigo para conversar e, começa a observar a movimentação dos pés dos passantes:

“Quis distrair-me, penetrar na conversa, tomar parte no assunto, não abandonar o amigo, prestar atenção às suas frases e opiniões, apoiá-lo ou divergir, mas nada consegui. Palavras que em qualquer outro momento me despertam e agitam – fome, miséria, injustiça, opressão, liberdade, direito, saúde, alegria – naquele instante eram fluidas, sem cor e ressonância.

Minha vontade desaparecera ante a eloquência do apelo dos pés.

Por que veio ela com seu sapatinho branco, todo branco e todo aberto, criar nova personagem no espetáculo que meus olhos já começavam a definir e classificar? Onde vai assim, leve, leve, como se voasse?

Não creio que esses sapatos sejam desse dono; são grandes demais, parecem soltos, prontos a fugir. (…)

Há tragédias nestes, cheios de lama. A camisa de seu dono deve estar suja, o colarinho puído, as meias rôtas.”

Ingressou, em 1935, na União Feminina do Brasil, movimento político que tinha como proposta uma luta mais ampla pelos direitos políticos, sociais e trabalhistas da mulher. 

Presa, após o fracasso da “Intentona Comunista”, conviveu na prisão com Olga Benário e Graciliano Ramos, que a ela se referiu em seu livro Memórias do Cárcere.

“De um lado e do outro da sala, enfileiradas, agarradas uma as outras, vinte e cinco camas. Quase presas ao teto alto, quatro janelas fechadas por tristes e negras grades.
Encostadas á parede, uma grande mesa com dois bancos. Ao fundo da sala os aparelhos sanitários. Por maior que fosse a nossa luta para mantê-los limpos e desinfetados, nunca conseguimos fugir do cheiro forte que exalavam. (…)

Éramos vinte e cinco mulheres presas políticas numa sala da Casa Detenção, Pavilhão dos Primários, 1935, 1936, 1937, 1938.

Quem já esqueceu o sombrio fascismo do Estado Novo com seus crimes, perseguições, assassinatos, desaparecimentos, torturas? (…)

Havia louras, negras, mulatas, morenas; de cabelos escuros e claros; de roupas caras e trajes modestos. Datilógrafas, médicas, domésticas, advogadas, mulheres intelectuais e operárias.

Algumas ficavam sempre, outras passavam dias ou meses, partiam, algumas vezes voltavam, outras nunca mais vinham. (…)

– Não sabemos quem é você. Mas nós somos antifascistas, nós somos presas políticas.
Cada uma de nós tem uma estória; esta veio presa do Norte, aquela está aqui como refém porque o marido sumiu. Somos todas brasileiras. (…)” (“Companheiras”, Eneida de Moraes)

Se Eneida estivesse viva hoje, estaria lutando pelo quê?

“Com certeza, pelas crianças do Brasil. Esse era um tema que a emocionava muito. Eneida, se estivesse viva, estaria lutando pela melhoria da educação”, afirma Eunice dos Santos, sua biógrafa.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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