Além da “crise de gestão”, os governantes atuais praticam a “gestão por meio de crises”.

O que é política? de Hannah Arendt - Frags 1, 2b e 3b - Novos Pensadores
(Hannah Arendt, 1906-1975)

“Os homens normais não sabem que tudo é possível.” (David Rousset)

Ah, se muitos lessem Hannah Arendt!

As ideologias, que anulam personalidades e as substituem pelo coletivo, pelo mugido das multidões, talvez não encontrassem terreno fértil.

Talvez, mas não é certo. Vejam o que ocorre neste momento de pandemia: evidências que pareciam inquestionáveis só fortaleceram algumas irracionalidades da extrema direita.

Há um fosso entre realidade e fantasia naqueles com “predisposição autoritária“, que representam cerca de um terço da população, segundo Karen Stenner. Para esses, o fosso se amplia em momentos de crise.

As ideologias – nos dois extremos do espectro político – são “instrumentos mistificadores do embrutecimento das massas e da transformação do indivíduo em elemento inerte destas massas”, conforme Marcos Margulies.

Hannah dizia: “É muito perturbador o fato do regime totalitário, malgrado o seu caráter evidentemente criminoso, contar com o apoio das massas.”

A insatisfação difusa e envolvente alimenta a irracionalidade da adesão aos movimentos autoritários.

As mentiras, versões distorcidas e instrumentalizadas, divulgadas por aparatos de comunicação em rede, só prosperam porque há receptáculos ansiando por esses vírus.

Rodrigo Nunes entende que a paixão antissistema consegue ser mobilizada por duas razões, basicamente:

  • o sistema político tem operado com baixa legitimidade. As eleições não garantem que os interesses da maioria da população serão priorizados. As elites e instituições agem como se não precisassem contar com a confiança do povo.
  • as insatisfações, embora difusas, realmente existem. Decorrem de carências históricas já desgastadas de tantas repetições e promessas vãs: saúde, educação e segurança, principalmente.

Falo sempre que há uma “crise de gestão“. Mas os governantes atuais praticam a “gestão por meio de crises“.

A extrema direita tem sabido captar essa inquietação: oferece uma política antissistema, com políticos “novos”, imunes às práticas do velho esquema. Mesmo que isso seja mais uma mentira; é o que querem ouvir.

Esses políticos se apresentam como inimigos das elites – representantes do “sistema” -embora só ataquem a elite política adversária e os líderes culturais. A elite econômica, naturalmente, é preservada.

A população inerte, a que só observa, que ora tende para um lado, ora para o outro, tornando a curva eleitoral assimétrica, aposta na “espontaneidade” e espera que algo transformador de fato aconteça.

“A crença de que o resultado que esperamos se verificará – independentemente do esforço ou de nossa capacidade para produzi-lo – oferece o conforto psicológico óbvio de tornar nossa própria fraqueza política e organizacional irrelevante.” (Rodrigo Nunes)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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