“Amanhã ainda não será outro dia”

Ferreira Gullar, Prêmio Camões 2010
(Ferreira Gullar, 1930-2016)

O Brasil, contrariando os mandatários atuais, que nem perdem tempo em classificar a “poesia” (imaginem: se acham o temor à pandemia uma frescura!), tem duas datas comemorativas para os que acham que “para viajar basta existir“.

A tradicional homenageia Castro Alves, que nasceu em 14 de março de 1847. Depois, oficializou-se o 31 de outubro, para prestigiar Carlos Drummond de Andrade, nascido nesta data, em 1902.

Para lembrar a ambos, trago Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira, um grande poeta – sensível, atuante e crítico da “normalidade factual”.

“Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e o desamparo, acender uma luz qualquer, uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens.” (Gullar)

AS PERAS

As peras, no prato,

apodrecem.

O relógio, sobre elas,

mede

a sua morte?

Paremos o pêndulo.

Deteríamos, assim, a

morte das frutas?

Oh as peras cansaram-se

de suas formas e de

sua doçura! As peras,

concluídas, gastam-se no

fulgor de estarem prontas

para nada.

O relógio

não mede. Trabalha

no vazio: sua voz desliza

fora dos corpos.

Tudo é o cansaço

de si. As peras se consomem

no seu doirado

sossego. As flores, no canteiro

diário, ardem,

ardem, em vermelhos e azuis. Tudo

desliza e está só.

O dia

comum, dia de todos, é a

distância entre as coisas.

Mas o dia do gato, o felino

e sem palavras

dia do gato que passa entre os móveis

é passar. Não entre os móveis. Passar

como eu

passo:

entre nada.

O dia das peras

é o seu apodrecimento.

É tranquilo o dia

das peras? Elas não gritam,

como o galo.

Gritar

para quê? se o canto

é apenas um arco

efêmero fora do coração?

Era preciso que

o canto não cessasse

nunca. Não pelo

canto (canto que os

homens ouvem) mas

porque cantando

o galo

é sem morte.

O ESCRAVO

Detrás da flor me subjugam,

atam-me os pés e as mãos.

E um pássaro vem cantar

para que eu me negue.

Mas eu sei que a única haste do tempo

é o sulco do riso na terra

– e a boca espedaçada que continua falando.

VOLTAS PARA CASA

Depois de um dia inteiro de trabalho

voltas para casa, cansado.

Já é noite em teu bairro e as mocinhas

de calças compridas desceram para a porta

após o jantar.

Os namorados vão ao cinema.

As empregadas surgem das entradas de serviço.

Caminhas na calçada escura.

Consumiste o dia numa sala fechada,

lidando com papéis e números.

Telefonaste, escreveste,

irritações e simpatias surgiram e desapareceram

no fluir dessas horas. E caminhas,

agora, vazio,

como se nada acontecera.

De fato, nada te acontece, exceto

talvez o estranho que te pisa o pé no elevador

e se desculpa.

Desde quando tua vida parou? Falas dos desastres,

dos crimes, dos adultérios,

mas são leitura de jornal. Fremes

ao pensar em certo filme que viste: a vida,

a vida é bela!

A vida é bela

mas não a tua. Não a de Pedro,

de Antônio, de Jorge, de Júlio,

de Lúcia, de Míriam, de Luísa …

Às vezes pensas

com nostalgia

nos anos de guerra,

o horizonte de pólvora,

o cabrito. Mas a guerra

agora é outra. Caminhas.

Tua casa está ali. A janela

acesa no terceiro andar. As crianças

ainda não dormiram.

Terá o mundo de ser para elas

este logro? Não será

teu dever mudá-lo?

Apertas o botão da cigarra.

Amanhã ainda não será outro dia.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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