A gripe americana

A Grande Gripe' narra a história da maior de todas as pandemias | VEJA

A chamada Gripe Espanhola começou nos EUA. Especificamente, numa unidade militar do Kansas; viajou para a Europa durante a I Guerra Mundial levada pelas tropas americanas e de lá se transformou numa pandemia.

A partir do primeiro surto, em janeiro e fevereiro, ela desapareceu daquele local.

Se os pacifistas tivessem prevalecido, e os EUA não tivessem ido à Guerra (eles entraram na Primeira Guerra em abril de 1917), talvez o ocorrido no Kansas não tivesse se alastrado.

O mundo ainda tentava entender o que fora aquela guerra, que matou cerca de 20 milhões de pessoas, quando se apercebeu que algo pior estava acontecendo.

Estima-se que entre 50 a 100 milhões morreram em decorrência da “Grande Gripe“.

Para termos uma ideia: ela fez mais vítimas do que a Aids em 24 anos; matou mais em um ano do que a peste bubônica ao longo de um século.

Um parêntese: a Covid-19 vitimou, até ontem, 2.550.334 pessoas no mundo. Temos 2,7% da população global e respondemos por 10% dessas mortes.

Clio, a musa da história, diverte-se com suas maldades.

Gripes, normalmente, matam idosos e crianças. Mas, a Grande Gripe tinha preferência por homens e mulheres na faixa dos vinte aos trinta anos. E, com uma ferocidade e rapidez extraordinárias.

A pandemia se prolongou por dois anos, porém 2/3 das mortes ocorreram em 24 semanas; mais da metade entre setembro e início de dezembro de 1918!

O cientista Paul Lewis, que havia descoberto que a poliomielite era causada por um vírus, presenciou alguns dos primeiros casos, num grupo de marinheiros, e logo desconfiou que seria uma gripe, embora diferente de qualquer outra já conhecida. Seus sintomas eram assustadores:

“O sangue que cobria tantos deles não vinha de ferimentos de batalha.

A maior parte do sangue vinha de hemorragias nasais. Alguns tossiam sangue.

Outros sangravam pelos ouvidos.

Alguns tossiam tanto que suas necropsias revelariam mais tarde que os músculos abdominais e a cartilagem das costelas tinham sido dilacerados.

E muitos se contorciam em agonia ou delírios.

Quando conseguiam se comunicar se queixavam de dor de cabeça, como se alguém martelasse uma cunha em seus crânios bem atrás de seus olhos, e seus corpos doíam tanto que parecia que os ossos estavam se quebrando.

Alguns vomitavam. (…)” (John Barry)

A Gripe Espanhola foi o primeiro choque entre a natureza e a ciência. Indivíduos da ciência que se recusaram a se submeter ou a implorar intervenção divina. Porém, respeitando o fenômeno, sem tratá-la como uma “gripezinha”.

A medicina não era tão respeitada, então. Era mais difícil ingressar em uma faculdade respeitável do que em uma faculdade de medicina americana até fins de 1900.

Cerca de cem faculdades de medicina dos EUA aceitavam qualquer homem – mulheres não – disposto a pagar suas mensalidades. A maioria sequer exigia um diploma de ensino médio!

Voltarei ao assunto.

Ironicamente, Lewis morreu de febre amarela na Bahia, em 1929, enquanto investigava a doença sob os auspícios da Fundação Rockefeller.

Informando: a febre amarela era parte do cartão postal do Rio. Em 1849, mais de 4 mil morreram dessa doença, apesar da baixa letalidade (4,5% dos infectados). O primeiro caso no Brasil, que se saiba, ocorreu em Pernambuco, em 1685.

Acreditava-se que sua causa seria o “envenenamento do ar”, miasmas.

Os políticos diziam que havia um “exagero na divulgação pelos jornais”:

“Esta epidemia nada tem em si de contagiosa nem de assustadora e os casos graves e fatais são devidos à predisposição dos doentes a moléstias análogas, ou ao susto de que os doentes se tem deixado apoderar (…)” (Conselho de Salubridade de Salvador, 1849)

Atualizando: “Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou resfriadinho (…)”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

<span>%d</span> blogueiros gostam disto: