A ética do cuidado e a questão de gênero

Por quê o feminismo incomoda mais que o feminicídio? » STEAL THE LOOK

“Uma mulher é morta a cada nove horas durante a pandemia no Brasil”, era manchete no Brasil no ano passado.

O país acumulou 4.936 mulheres mortas em 2019, o maior número registrado na série histórica do levantamento.

Deixando claro: feminicídio refere-se aos assassinatos de mulheres em que o fato de serem mulheres tenha sido o fator essencial no crime.

A pandemia do Covid-19, com suas implicações de afastamento social, aumento do desemprego, trabalho remoto, convivência diária de casais antes das aposentadorias, estresse com temor da doença etc., elevaram os índices de feminicídio no país.

É fato que somos – não só aqui – uma nação comandada pela desigualdade de gênero e pelo patriarcalismo. Desigualdade não só de gênero, claro; mas vamos focar neste ponto.

Feminista… é fazer aquilo que diziam que eu não podia fazer; aquilo que diziam que só o homem pode fazer, eu como mulher também posso fazer. Feminista, acima de tudo é quebrar barreira, é mostrar que a gente pode fazer o trabalho independente do homem, não necessariamente que tenha um do lado. (Ajurimar Bentes)

Carol Gilligan argumenta que aparentemente há duas perspectivas diversas de compreensão moral: uma delas é a perspectiva “masculina”, que também se pode denominar de voz padrão da moralidade, segundo a qual as decisões morais são baseadas em noções de justiça, no respeito a direitos individuais e a normas universais; a outra é a perspectiva “feminina”, geralmente associadas às mulheres, que Gilligan também denomina de “voz diferente” da moralidade e que aponta para um modo diverso de falar sobre problemas morais, baseado na experiência da conexão com o outro da qual resulta a atribuição de prioridade à manutenção de relacionamentos de cuidado na tomada de decisões morais.

Este é o ponto de partida para as defensoras da ética do cuidado.

De acordo com Karen Warren, “a estrutura conceitual patriarcal, formada por um conjunto de crenças básicas, valores, atitudes e pressupostos, produz uma visão hierárquica e dualista de mundo, na qual os homens se consideram superiores por sua racionalidade e as mulheres são tidas como inferiores e associadas por eles aos sentimentos e a emoção.”

Somos reféns do dualismo. Segundo Marti Kheel o pensamento dualista ocidental percebe o mundo de maneira polarizada e estática, onde razão se opõe a emoção, cultura se opõe a natureza, e o superior se opõe ao inferior.

Duas características são centrais nesse dualismo:

  • a primeira metade da dualidade é sempre mais valorizada do que a outra;
  • e a metade mais valorizada é sempre vista como “masculina” e a metade menos valorizada, como “feminina.”

Com a Revolução Industrial e as duas guerras mundiais, principalmente, o papel da mulher mudou. Ela passou a se distanciar do âmbito familiar e partiu para uma postura mais ativa, integrada, na comunidade. Deixou de ser vista apenas como aquela responsável pelo lar e pela família, e se tornou independente – inclusive economicamente – e participativa, nas diversas esferas sociais.

Isso foi um atropelo para os valores masculinos e, o fortalecimento do feminismo.

O feminismo incomoda aos machistas. Não posso provar, mas talvez seja indutor do feminicídio.

As mulheres cobram dos homens mais sensibilidade, mais atenção, mais amabilidade e que se disponham a um ‘relacionamento’ duradouro.

Há um conflito aberto, talvez baseado numa confusão entre “sexo” e “gênero”.

Sexo ou sexualidade refere-se aos aspectos “biológicos” da reprodução humana. Estamos falando, então, de macho e fêmea.

Gênero, por sua vez, diz respeito aos aspectos ‘culturais’. Neste sentido, temos masculino e feminino.

Estas duas esferas (sexo e gênero) se interconectam e se interseccionam, mas geram atritos históricos.

As diferenças entre macho/fêmea são universais (biológicas); não sofrem muitas alterações – do ponto de vista geracional.

Já a relação masculino/feminino pode evoluir – culturalmente – e sofrer alterações significativas, até numa geração.

Perguntas como “por que o homem não pode ser mais parecido com a mulher?”, não faz sentido.

Assim como a mulher não é um “homem deficiente”, o homem não pode ser visto, agora, como uma “mulher deficiente”.

Vivemos, há algum tempo, essas mudanças entre os papéis designados aos gêneros.

Biologicamente, entre machos e fêmeas, e culturalmente, entre masculino e feminino, existem diferenças evidentes, que se refletem nas suas escalas de valores:

  • homens: tendem para a individualidade exacerbada, enfatizam a autonomia, os direitos, a justiça e a ação.
  • mulheres: tendem para uma conscientização mais voltada para as relações, enfatiza as comunidades, os cuidados, a responsabilidade e os relacionamentos.

Os homens, em resumo, temem os relacionamentos e valorizam a autonomia. As mulheres, são o contrário. Em termos gerais, claro.

A diferença entre as escalas de valores dos dois gêneros/sexos é clara. E, torna-se um problema quando ambos procuram atuar nos mesmos campos.

Tentar impor uma escala à outra é forçar a natureza. Não faz sentido fazê-las iguais, mas equilibrá-las, atribuindo a elas o mesmo valor.

Claro que os homens têm dominado as esferas de trabalho e sociais por muitos séculos. As mulheres foram – historicamente – introduzidas nesses espaços. Perfeito. Equilibremos as participações, com suas características.

Vejam uma empresa. Os valores masculinos podem ser “acrescidos” dos femininos, não anulados.

A raça humana não tem dois sexos por acaso, mas por necessidade.

Os homens têm a testosterona, que, biologicamente os leva às atitudes traduzidas nos seus valores “culturais”. Uma exigência da evolução.

As mulheres têm o Ocitocina ou Oxitocinona, que tende a fluir na fêmea, mesmo se a sua pele for apenas tocada. Ele induz, de uma forma inacreditável, a um forte sentimento de ligação, relacionamento, continuidade, contato, toque.

A lógica evolutiva pode ter sido: reprodução e sobrevivência, no caso dos machos, e, amamentação, nas fêmeas.

Lembrando: durante o coito, ambas as partes estavam expostas a serem presas. Nada de compartilhar sentimentos, emoções e carícias – eis o homem.

Para as mulheres, as necessidades de amamentação são muito diferentes. Elas precisavam estar em sintonia com a criança, sempre, alerta aos sinais de fome ou dor.

Mas, surgiram a “pílula” e outros métodos anticoncepcionais. As mulheres podem escapar de seu “destino” sexual.

E, os LGBTI’s se insurgiram contra o “sexo” original.

Ou seja, tá tudo indefinido.

No âmbito familiar e corporativo, emerge a cooperação.

No social, a tolerância.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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