“Quase sempre o êxito justificou os seus métodos”

Rainha Elizabeth I - Toda Matéria
(Elizabeth I, 1533-1603)

A 19 de maio de 1536, Ana Bolena era decapitada. Ela escolheu o tipo de morte; a opção era ser queimada.

Havia sido acusada de adultério e incesto. No mesmo dia, seu irmão e quatro jovens também foram executados. Aparentemente, foi tudo forjado.

A culpa de Ana foi não ter gerado um filho para Henrique VIII. Aliás, em janeiro daquele ano havia dado à luz uma criança morta … do sexo masculino. O rei já tinha 45 anos e o desejo de ter um filho virara uma ideia fixa.

Elizabeth, filha que nasceu logo após o casamento, tinha menos de 3 anos.

Ele tivera sete filhos com a primeira esposa, Catarina de Aragão – viúva de seu irmão mais velho, Artur. Todos morreram ao nascer ou com pouco tempo de vida, com exceção duma filha, Maria.

Ele queria um príncipe, não uma princesa. Temia que ela pudesse se ver obrigada a se casar com um infante da Espanha ou um descendente dos reis franceses, as duas potências européias à época. A Inglaterra, não era páreo para elas, viraria vassala.

Tentou uma anulação, apelando para o Levítico (Lev 18-16: “Não descobrirás a nudez da mulher de teu irmão …”) e Levítico 20-21, que condenam a união dum homem com a sua cunhada.

Esqueceu de citar a lei do Levirato (levir: cunhado em latim), que obriga o irmão a se casar com a viúva de seu irmão falecido sem filhos (Deuteronômio 25-5).

Mas, ele era um bom moço: pediu permissão ao papa.

O papa, Clemente VII, por sua vez, temia a reação de Carlos V, Sacro Imperador Romano, Arquiduque da Áustria, Rei da Espanha e Senhor dos Países Baixos. E… sobrinho de Catarina de Aragão.

O papa ficou enrolando. A ira de Henrique aumentando. Os protestantes, trabalhando: logo um sínodo de pastores decidiu – sem dúvidas – que a anulação do casamento era correta.

Os aspectos tenebrosos da personalidade de Henrique estavam sendo liberados – até então, aconselhado por um cardeal, reinara com honra. A partir desse impasse, sua sede de riquezas, o egoísmo extremado e uma crueldade doentia passaram a dominar suas ações.

Para temperar sua impaciência, surgiu a picante Ana Bolena. Antes de por os olhos em Ana, tornou sua irmã, Maria, sua amante. Mas, depressa se cansou da Maria. Queria a Ana.

Ana, morrendo de amores pelo monarca, atiça a fogueira. Ambição e leviandade.

Sob sua influência Henrique decide romper com Roma e se proclama chefe da Igreja na Inglaterra.

Havia outros interesses: o confisco de bens (terras, principalmente) de conventos.

Padres e monges que se recusam a aceitar a mudança são enforcados, estripados e lançados, vivos, em água fervente.

Até Thomas More, um dos homens mais íntegros do seu tempo, é condenado ao cadafalso.

Com a morte de Ana Bolena, as irmãs – Maria e Elizabeth – são declaradas bastardas.

Finalmente, com o casamento seguinte, com Jane Seymour, sua amante, veio um herdeiro: Eduardo. Jane morre no parto.

Três anos depois, desposa Ana de Clèves. Não dura muito: era estéril e enfadonha. Alguns meses depois ela é repudiada.

Havia surgido Catarina Howard, prima da Ana Bolena. Leviana antes do casamento, continua a sê-lo depois: cadafalso.

Para terminar a lista, Catarina Parr, que sobrevive ao marido.

Em 1543, as duas irmãs são restabelecidas como eventuais sucessoras, caso o jovem Eduardo morra sem deixar filhos.

Enquanto isso, uma nova classe surge vinda dos negócios ou do mundo dos tribunais, enriquecida com os despojos dos mosteiros e colégios católicos.

Com a morte de Henrique VIII, em 1547, assume Eduardo, o filho da Jane Seymour. Como tinha apenas dez anos, seu tio assume como regente. O menino morre seis anos depois.

A coroa passa para a católica Maria Tudor, a meia-irmã de Elizabeth.

Numa tramoia, os protestantes tentaram por no trono Lady Jane Grey, descendente da irmã mais nova de Henrique VII. Seu reinado dura alguns dias. Ela e seus partidários são enviados ao cadafalso.

Muitas fogueiras foram acesas para liquidar os descontentes com o papismo da soberana.

Em 1558, Maria Tudor, a sanguinária, entrega a Deus sua alma atormentada.

Em 14 de janeiro de 1559, Elizabeth I seria entronizada para um governo de 44 anos. Tinha 25 anos.

Conhecia os homens sob o seu aspecto mais repugnante.

Jura a si própria nunca se fiar nas aparências, nunca se entregar sem reticências, nunca desvendar o mais fundo do seu pensamento e permanecer, sempre e a todo o custo, plena senhora de si mesma.

“Prudente, discreta, astuta, capaz de esperar, afeiçoada à paz, poupando o sangue dos seus súditos, soube disciplinar a fogosidade destes, canalizá-la, dar-lhe livre curso somente no momento exato e com um objetivo nitidamente definido. Quase sempre o êxito justificou os seus métodos.” (Jacques Chastenet)

Encontrou uma Inglaterra fraca, pouco povoada, meio arruinada, despedaçada internamente por lutas religiosas, ameaçada externamente por terríveis perigos.

Deixou-a próspera, pacificada, temida, em plena expansão e a caminho de tornar-se uma das primeiras potências do globo.

Ao convocar Sir William Cecil para ser o primeiro ministro (primeiro secretário era o título) disse:

“Confio-vos estas funções e as de conselheiro privado, com o pensamento de que não vos poupeis a nenhum trabalho para me servir, a mim e ao meu reino.

Considero-me certa de que não vos deixareis corromper por nenhuma espécie de presente, que sereis sempre fiel ao Estado e que, sem procurardes adivinhar o meu desejo oculto, me dareis sempre o conselho que considerardes melhor.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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