“Eles não podiam aceitar que um judeu, esse verme, mesmo nos campos da morte, não tivesse perdido a fé em Deus.”

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(Sarah Kofman, 1934-1994)

Sarah Kofman era uma filósofa, autora de mais de 20 livros que abordavam a psicanálise, filosofia, o feminismo, Nietzsche e Freud.

Seu último livro, de memórias, se refere a dois endereços: o primeiro, onde a família vivia até a detenção do pai, e o segundo, onde ela ficou abrigada, durante a guerra, depois de ter sido recolhida por uma parisiense divorciada, que a tratava como filha.

O livro conta a história desse período e da disputa entre a mãe adotiva e a mãe biológica, por sua custódia, após a libertação de Paris. Este livro a arrasou.

Escolheu o dia do 150º aniversário de Nietzsche para suicidar-se. Estava prestes a completar 60 anos.

Ela viu quando seu pai, o rabino Bereck Kofman, foi “recolhido”. Tinha oito anos.

“Meu pai Bereck Kofman, nascido em 10 de outubro de 1900, em Sobin, Polônia, foi transportado para Drancy no dia 16 de julho de 1942.

Ele estava no comboio número doze, do dia 19 de julho de 1942, com outros mil deportados, sendo 270 homens e 730 mulheres, de idade entre 36 e 54 anos; 270 homens registrados com números entre 54.153 e 54.422; 514 mulheres selecionadas para trabalhar ….”

Ela tinha todos os números, todas as informações. Saber doía mais do que ignorar.

Conhecer o fim terrível de seu pai e de toda uma geração angustiou sua alma por toda a vida.

“Seu corpo, frágil, sempre habitado por doenças, por feridas, por padecimentos e pelo medo do contato, nunca conseguiria resistir à liberação dessas amedrontadoras memórias.” (Jacques Fux)

Teria ela partido com calma e alívio ou completamente em pânico?

Foi educada pelos pais a comer tudo; não podia deixar que sobrasse comida nenhuma, mesmo se não gostasse da comida. A vida era dura.

Mas, tinha que respeitar a comida kosher: não podia misturar carne com leite, trocar talheres, comer carne de porco, peixes sem escamas e alguns frutos do mar. Isso era sagrado!

Mas, a guerra começou. Nas guerras, o cotidiano perde o sentido. Há um “estado de suspensão”: suspensão da razão, das doutrinas, da humanidade. Da vida.

A família tentou fugir, num trem da Cruz Vermelha. O alimento servido no trem era proibido: sanduíche de presunto e maionese. O pai, que sempre manteve a fé, permitiu que o sanduíche fosse comido: a manutenção da vida era mais importante do que uma lei sagrada.

“Ela sentiu o maravilhoso sabor da contravenção. Do medo. Do proibido. Da maçã”, escreve Jacques Fux.

Mas, sua família não conseguiu fugir. Foram obrigados a voltar.

Ao ser adotada, foi obrigada a renunciar à comida kosher. Sua nova mãe, católica e antissemita, dizia que aquela comida era nefasta. Essa “mãe” lhe dizia que seu povo e seu corpo eram sujos, poluídos, desprezíveis. Ela, Sarah, era uma exceção, dizia.

“Meu pai, um rabino, foi morto porque tentou observar o Shabat – o dia santificado -, nos campos de extermínio; foi enterrado vivo por ter – de acordo com o relato das testemunhas – se recusado a trabalhar no dia sagrado, a fim de homenagear esse Deus de todos, vítimas e algozes, e restabelecer, nessa situação de impotência e extrema violência, uma relação além do poder do campo.

Eles não podiam aceitar que um judeu, esse verme, mesmo nos campos da morte, não tivesse perdido a fé em Deus.” (Sarah Kofman)

Sarah (“princesa”, em hebraico), compreendeu, ao final da vida, que nunca, jamais, criança judia alguma foi verdadeiramente salva, mesmo quando adotada. A fratura que sua mãe adotiva lhe afligiu nunca cicatrizou. Foram 60 anos de infelicidades. Fora desterrada na sua terra e na sua alma.

Ela, ao finalizar seu livro-testamento se transformou num cadáver vivo. A morte havia tomado conta de todos os seus pensamentos. A morte lhe traria paz?

“Todos somos demasiadamente humanos e cruéis. Por isso eu escolho meu fim.”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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