A ciência não é a verdade; a não-ciência é mentira

(Karl Popper, 1902-1994)

Karl Popper, embora luterano, era de origem judia.

Saiu de sua Viena para escapar do nazismo.

Na sua juventude, Viena era uma cidade multicultural, multirracial, cosmopolita, de efervescente criatividade literária e artística, espírito crítico e intensos debates intelectuais e políticos. Era a cidade mais culta e livre da Europa.

Daí deve ter nascido sua ideia de “sociedade aberta”. Lá aprendeu a detestar o nacionalismo, que ele identificava como o inimigo mortal da cultura da liberdade.

Depois da ocupação nazista, tudo mudou.

“Inicialmente me opus ao sionismo porque já era contra toda forma de nacionalismo.

Mas nunca acreditei que os sionistas se tornariam racistas. Isso me faz sentir vergonha de minha origem, pois eu me sinto responsável pelas ações dos nacionalistas israelenses.” (Popper)

A ideia de “povo eleito” lhe parecia perigosa. Pressagiava as visões modernas de “classe eleita” do marxismo ou de “raça eleita” do nazismo.

No seu livro “A lógica da Pesquisa Científica”, de 1935, destroniza a ciência: ela não deve pretender fornecer a resposta final a qualquer pergunta, mas se contentar em tentar refutar as coisas. A ciência seria uma máquina implacável para destruir falsidades.

A ciência é um negócio essencialmente teórico, mesmo quando for o ‘padrão’.

O que fortalece a ciência é seu método de falsificação. O processo da ciência, escreveu Popper, seria conjeturar uma hipótese e então tentar falsificá-la.

Você deve configurar um experimento para tentar provar que sua hipótese está errada. Se for refutado, você deve renunciar a ele. Aqui reside a grande distinção entre ciência e pseudociência: esta tentará se proteger da refutação massageando sua teoria. Mas na ciência é tudo ou nada, faça ou morra.

Popper advertia aos cientistas que, embora os testes experimentais pudessem levá-los cada vez mais perto da verdade de sua hipótese por meio de corroboração, não se pode e nunca se deve proclamar correto.

A lógica da indução significa que você nunca coletará a massa infinita de evidências necessárias para ter certeza em todos os casos possíveis, então é melhor considerar o corpo de conhecimento científico não tanto verdadeiro quanto não-ainda-refutado, ou provisoriamente verdadeiro.

A falseabilidade empírica e a ausência de dogmatismo são essenciais para a ciência.

Além disso, a racionalidade precisa da atitude crítica, a atitude pela qual posso estar errado e você certo e, juntos, podemos nos esforçar para chegar mais perto da verdade.

A questão da ética na ciência é um assunto correlato. Como resolvê-la?

Peter Medawar, por exemplo, argumentava que a Eugenia poderia ser “positiva” ou “negativa”.

A eugenia “positiva” – a criação de uma raça perfeita – seria má porque era nazista e uma meta científica infalsificável – não popperiana.

Já a eugenia “negativa”, a prevenção deliberada da concepção por portadores de certas condições genéticas, seria uma questão estritamente científica (isto é, popperiana), e não tocava em questões de ética.

O julgamento sobre quem estava “apto” ou não para fazer parte da sociedade (nascer ou permanecer vivo) era uma ideia que os biólogos evolucionistas tinham clareza perfeita.

As “pessoas comuns” não deveriam se preocupar com suas implicações; o importante era que os cientistas tinham isso claro em suas mentes. A ciência apenas fornecia os fatos; cabia ao pai em potencial decidir.

Todos concordam? Dá para desconectar ciência, poder político-econômico e ética?

Seria por acaso que há mais progresso científico em medicamentos para o tratamento de doenças relacionadas à riqueza do que à pobreza?

Medawar especulou que a ‘aptidão’ biológica era de fato mais bem entendida como um fenômeno econômico; em termos de desempenho reprodutivo líquido!

Isto lembra o neoliberalismo, que alimenta o mito de que representa uma perspectiva política neutra – um compromisso com a não intromissão – quando na verdade se sustenta por meio de propaganda agressiva pró-negócios e da supressão do trabalho organizado.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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