“Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam”

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(Nelson Rodrigues, 1912-1980)

Nelson Rodrigues era um gênio, exclama Ronaldo Bôscoli (1928-1994) em suas memórias (“Eles e Eu”).

Bôscoli era um típico playboy da zona sul carioca. Com o empobrecimento da família, precisou trabalhar. O que lhe pareceu palatável foi jornalismo esportivo: algum prazer no fazer.

No Última Hora, conheceu Nelson Rodrigues.

Um dia, Nelson se aproximou e, com o dedo espetado no seu peito, falou, com aquela voz pastosa: “Ô Bôscoli, me paga um café.”

Tornaram-se amigos, até confidentes.

Nelson se encantou com o Bôscoli justamente por seu “jeito” Zona Sul: gírias e histórias sobre garotinhas.

Nelson estava escrevendo a “Vida como ela é” e, quando precisava de um nome para um personagem, ele ‘consultava’ o Bôscoli:

– “Um nome pra corno, Bôscoli, eu preciso de um nome para corno!”, “- Gusmão”, disse Bôscoli. Aprovado.

– “Nome de funcionário público, Bôscoli?” – “Ernesto”. – “Batata: Ernesto!”

“Nelson não tinha noção do que fosse a vida, daí sua genialidade; ele criava tudo da própria cabeça. Imaginava, não vivia.”

Em 1958, conta o Bôscoli, foram ao Maracanã assistir Brasil x Uruguai. Nelson iria escrever sua primeira crônica sobre Pelé. – “Me mostra o Pelé. Quem é o Pelé?”, pede Nelson.

Confundiu o Didi com Pelé. – “Não, aquele é o Didi! O outro!” – “Aquele menino!?”

Pelé só tinha 17 anos. Nelson se calou, estarrecido, admirado. Começou imediatamente a escrever, como se dominasse inteiramente a história do jogador.

Na Copa de 58, Nelson dizia que Pelé andava em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais – seria a majestade que iria desbancar toda a Europa.

“Ele vai lavar nossa alma de vira-latas!” (Nelson)

“Nelson era um suburbano de carteirinha: terninho de linho azul, com camisa de manga curta e suspensórios, guarda-chuva preto na mão e pão com manteiga embrulhado num papelzinho enfiado no bolso da calça. Um tipo! Mais Zona Norte impossível.” (Bôscoli)

Só bebia água mineral e café.

Um dia Bôscoli o convenceu a irem a Copacabana, para uma noitada. Foram a uma boate, ouvir Dolores Duran. Lá pras tantas, Nelson falou: – “Isso aqui tem uma atmosfera meio sedutora, parece o inferno.”

“O Nelson era na verdade um grande menino, sempre foi e morreu assim, porque ele não tinha experiência de vida nenhuma, em nada!”

Algumas das frases do repórter da alma:

  • “Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.”
  • “O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da imaturidade.”
  • “Qualquer indivíduo é mais importante do que toda a Via Láctea.”
  • “Invejo a burrice, porque é eterna.”
  • “Dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro.” 
  • “O brasileiro é um feriado.” 
  • “Deus está nas coincidências.”
  • “No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte.”
  • “Só o inimigo não trai nunca.”
  • “As grandes convivências estão a um milímetro do tédio.”
  • “O sábado é uma ilusão.”
  • “Há no ser humano, e ainda nos melhores, uma série de ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las.”
  • “Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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