Orfismo

Mito de Orfeu e Eurídice
(Orfeu e Eurídice, de Frederic Leighton, 1864)

Orfeu, o poeta mítico, que desceu ao submundo e voltou.  

Após a morte de sua amada, Eurídice, Orfeu resolveu descer ao mundo de mortos e pedir a Hades, deus dos mortos, e a sua esposa Perséfone, que permitissem sua volta. Não deu muito certo.

Os órficos, seus seguidores, reverenciavam Dioniso (que também uma vez desceu ao Mundo Inferior e voltou) e Perséfone (que descia ao Mundo Inferior por uma temporada e depois retornava, personificando a primavera). O orfismo tem sido descrito como uma reforma da anterior religião dionisíaca.

Os órficos acreditavam que, após a morte, passariam à eternidade ao lado de Orfeu e outros heróis. Os não iniciados seriam reencarnados indefinidamente.

Na antiguidade grega vicejaram movimentos, como o Orfismo e o Pitagorismo, que buscavam na ascética da alma sua finalidade na vida.

Giovanna Braz, numa matéria de 2019, levantou a influência do orfismo nos Diálogos platônicos. A seguir, um resumo de seus pontos:

Platão fala de uns seguidores muito antigos, como de um tempo primitivo, que praticavam modos de vida órficos, marcados basicamente pela prática severa do vegetarianismo e pela proibição do sacrifício de animais.

Entre os sacerdotes órficos, reprova textualmente aqueles que, à semelhança dos sofistas, iam de cidade em cidade batendo às portas dos ricos, oferecendo promessas como a da bem-aventurança no Hades em troca de dinheiro.

Atribui aos seguidores de Orfeu basicamente dois feitos: a propagação da “teoria do corpo enquanto túmulo da alma” e a celebração das teletai (celebrações mistéricas). A conhecida fórmula órfica soma-sema (“o corpo é o túmulo da alma”) é evocada diversas vezes nos diálogos, sobretudo no Fédon, e introduz consigo a ideia das penas a que os não-iniciados estariam obrigados a cumprir no além, como carregar água utilizando uma jarra furada ou chafurdar na lama.

Associa tanto a doutrina segundo a qual o corpo é uma prisão para a alma – utilizada ao longo do Fédon para definir o corpo como um obstáculo na busca do conhecimento –, quanto a doutrina da imortalidade da alma e de sua transmigração.

Sócrates (em Fédon), mesmo não apresentando uma fonte declaradamente expressa, faz uma série de referências que definem com clareza a origem órfica das alusões, que vão desde a preocupação central com a morte (a preparação para a morte, a morte como a verdadeira vida, como purificação e como liberação), às doutrinas sobre a alma (sua imortalidade, sua condição trágica presa ao corpo e sua transmigração) e os requisitos para sua salvação no Hades.

Sócrates afirma “ser a morte um bem ao qual os filósofos devem aspirar“, mas defende a proibição do suicídio, “pois, segundo se diz, é proibido pelos deuses”.

A doutrina a que se alude é a da libertação do ciclo de transmigração da alma, que consiste no “escape da condição mortal humana e o consequente acesso à natureza divina, ao tornar-se divino“. O destino daqueles que morrem “será infinitamente mais compensador para os bons do que para os maus”.

Uma expressão órfica: “ao que não é puro, não é lícito acercar-se do que é puro”.

Sócrates se refere à esperança num destino melhor apenas aos que têm a mente purificada. É por sentir que tem a mente purificada que Sócrates encara com alegre esperança sua partida ao além.

A prática da filosofia seria um exercício de morrer e de estar morto, uma preparação para a morte que consiste em separar o máximo possível a alma do corpo a fim de habituá-la a concentrar-se sobre si mesma.

Por ser a sede dos dados dos sentidos e das paixões que perturbam a psyche, o corpo é um obstáculo não só ao raciocínio, mas à aquisição da verdade e da sabedoria.

Sócrates retoma um dos principais elementos das doutrinas órficas: a ideia de que a alma é imortal e divina em contraposição ao corpo, que é mortal. O filósofo diz que a alma se assemelha ao imortal, divino e sábio, a espécie de realidade em si sempre imutável e idêntica a si mesma. O corpo, por sua vez, tem afinidade ao mortal, ao que é perecível, aos erros, loucuras, receios e paixões selvagens.

Embora Platão não visse com bons olhos os ritos iniciáticos órficos, considerando-os charlatanismo, muito lhe atraíram as imagens, esquemas de pensamento, o vocabulário e até mesmo doutrinas próprias do orfismo.

Os órficos pregavam a celebração de ritos iniciáticos, cujo propósito seria purificar a psyche de seus participantes, libertando-a de possíveis males no além.

Segundo os órficos, o ser humano é o resultado de um evento mítico que culminou na morte do deus Dioniso, assassinado e devorado pelos Titãs.

Zeus, irritado com tal feito, fulminou os Titãs com um raio e de suas cinzas e sangue misturados à terra nasceram os homens, formados, assim, por duas naturezas distintas, uma divina e imortal, proveniente dos Titãs e Dioniso, e uma corruptível e mortal, proveniente da terra.

A alma, por sua vez, possui um componente divino positivo, procedente de Dioniso, e um componente divino negativo, proveniente dos Titãs. Tendo herdado a culpa do assassinato de Dioniso, os seres humanos trazem consigo resquícios da natureza titânica na alma, pelos quais são castigados, devendo purgar seu crime num corpo (soma) que é como um túmulo (sema) para a alma.

“… quem sabe se viver é morrer e morrer é estar vivo? E de verdade pode ser que nós, na realidade, estejamos mortos! Conforme ouvi dizer até dos sábios: que atualmente somos mortos e que nossa tumba é o corpo.” (Platão, em Górgias)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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