Educar para o quê?

(“Pestalozzi e os órfãos de Stan”, de Konrad Grob, 1879)


Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) foi um pedagogo suíço, de formação protestante, mas que se considerava um cristão, sem defender uma religião específica.

Viveu numa época na qual o capitalismo se consolidava, juntamente com os ideais de liberdade e igualdade – principalmente para a ascendente sociedade burguesa liberal. A tal da fraternidade nunca foi forte.

A classe operária surgia, em prejuízo dos artesãos. A pobreza – que sempre existiu – transformou-se, com a migração para as cidades, em miséria para muitos – e enriquecimento para poucos. Nada novo. Mas, passou a ser visível e sem as alternativas que o campo oferecia, inclusive a solidariedade.

“Era das Revoluções”, classificou Hobsbawn: Revolução Industrial, Revolução Francesa, criação dos Estados Nacionais e as Guerras Napoleônicas.

Os valores sociais, foram mudando e a noção de “carreira” tomou vulto: ênfase no “talento” pessoal, na ambição e no trabalho duro. E começou-se a falar em “sucesso“.

Este ‘sucesso’ se daria de duas formas: pelos negócios ou pela educação. Parece atual – ainda?

À classe média – ou burgueses, se quiserem – interessava mais o estímulo à educação, para diminuir a concorrência nos negócios. Queriam mão-de-obra, força de trabalho para seus negócios.

A educação passou a significar a vitória dos “méritos” sobre a condição de nascimento do sujeito. O fracasso ou o sucesso dependeria do esforço e do talento individuais. Conhecem isso?

Os pobres são, então, convidados a construir essa nova sociedade; não na tomada de decisões, mas na sua construção apenas.

A ética protestante (principalmente o Calvinismo) impulsionava o espírito do capitalismo, como Max Weber (1864-1920) viria a analisar depois: os protestantes apresentavam maior racionalidade econômica do que os católicos.

Este é o caldo de cultura em que surge Pestalozzi: educar para que se saia da miséria.

O objetivo primário da educação seria mostrar o caminho para uma transformação social, não para a riqueza nem para a tomada de decisões, mas que se transformem no sentido de viverem felizes no lugar em que estiverem.

O princípio liberal prevalecia: todas as pessoas devem ter um ponto de partida igual; o ponto de chegada dependeria de cada um.

Não cabe aqui discutir a atualidade desses conceitos. Nem isso temos, a rigor.

Pestalozzi, homem de sua época – e personalidade ímpar e solidária – toma por base que as “diferenças surgirão” por conta dos “talentos”. Não lhe interessava incluir no seu pensamento pedagógico outras questões, como “apropriação econômica” ou o “lugar social” em que se está, embora estas sutilezas afetem o percurso.

Seu foco será defender os talentos das crianças: ele vai buscar o tempo inteiro a descoberta dos talentos, porque as pessoas são essencialmente diferentes. Nisso foi inovador, ao conceder liberdade para o desenvolvimento das ‘aptidões’ e interesses que cada criança desperta, ao invés de uma ‘educação’ uniforme para todos.

Voltarei ao tema.


Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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