Hipocrisia institucional e cultural

(Philomena Lee e Papa Francisco)

A Igreja? “Eu não sinto mais rancor, não poderia viver 62 anos com esse sentimento”.

No dia seguinte ao encontro com o Papa Francisco – “foi uma grande honra, é uma pessoa especial, me comoveu”.

Philomena Lee se sente livre. Livre da “vergonha” que trazia consigo há décadas. A irlandesa Lee, hoje, com 87 anos, e a sua história tornou-se um filme (Philomena, dirigido por Stephen Frears, de 2013).

“Em 2017, quando uma vala comum foi descoberta no condado de Galway, perto do que havia sido um ‘lar para mães solteiras‘ décadas antes. Sufocados pela terra, foram encontrados os restos mortais de cerca de 800 crianças, que passaram por uma das mother and baby homes espalhadas por toda a Irlanda e administradas principalmente por freiras. Ali eram hospedadas mulheres que haviam tido filhos fora do casamento, seus filhos e até muitos órfãos, com o objetivo de mantê-los afastados da sociedade.” (Il Fatto Quotidiano, 13-01-2021; tradução de Luisa Rabolini)

É a consequência de abusos e violências sofridos por crianças entre 1922 a 1998 – ano em que o último ‘lar para mães solteiras’ foi fechado. Estima-se que 9 mil crianças ou recém-nascidos tenham morrido nessas condições: desnutriçãodoenças e miséria.

A motivação: eram crianças nascidas fora do casamento!

Em 2018, numa visita à Irlanda, o Papa Francisco se encontrou com oito sobreviventes desse abuso clerical e institucional.

A história de Philomena: em 1952, então com 19 anos, ficou grávida. Como muitas outras mães solteiras, foi mandada para um convento, onde foi forçada a abandonar o filho depois do parto. A criança foi enviada para os EUA, onde, com a ajuda de um jornalista, ela o encontrou 50 anos depois.

“Sempre me senti culpada por ter tido um filho fora do casamento. Só o meu irmão conhecia a história. E ontem, encontrando o papa, me senti finalmente livre.

Entendi que eu não devia me sentir mais culpada.

Eu acho que o Papa Francisco estará comigo na luta para ajudar milhares de mães e de crianças que buscam a verdade sobre a sua história.

No convento, tínhamos que renunciar ao nosso nome e assumir outro. Por três anos, eu me chamei Marcela. E todas as outras moças na minha condição que eu conheci naquela época tinham nomes diferentes dos originais.

Eu não sei quem foi o responsável, até onde chegava a responsabilidade. Foi como foi. Aconteceu há muito tempo.

Claro que, no começo, quando eu saí, eu estava muito desiludida, com raiva, ferida, triste, brigava com todos. Eu também me afastei um pouco da fé. Mas não poderia viver por 62 anos com rancor.

Depois, me tornei enfermeira em um hospital psiquiátrico e ali conheci o sofrimento e a dor de tantas pessoas, uma dor ainda pior do que a minha, e isso me ajudou a deixar de lado o meu sofrimento. Eu não tenho ressentimento, não mais, ao menos.” (Philomena Lee)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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