“Não é circo. É a lei que monta o espetáculo”

(A Execução de Frei Caneca, 1924. de Murillo La Greca)

Num 13 de janeiro, em 1825, Frei Caneca era fuzilado (arcabuzado). Os carrascos haviam se negado a enforca-lo.

Como religioso, insistia numa religião ética, que não valorizasse apenas os ritos e cultos. Advogava a necessidade da união entre fé e vida.

Contestava uma religião com preocupações meramente dedicadas à manutenção do rebanho de fiéis, apenas festeira, santeira e devocional, descomprometida em termos de vivência no cotidiano, antes preocupada com o número de devoções diárias, mas que não leva a transformações de vida, a um reflexo no comportamento pessoal, familiar e social.

Uma fé ‘folclórica’, mais voltada à identidade social, grupal.

“A oração eficaz só se encontra nas mãos do justo”. (Frei Caneca)

Sobre o reflexo no comportamento social, queria referir-se ao apreço às virtudes cívicas. Antecipava-se ao que Max Weber definiria como ‘ascetismo intramundano’ ao designar o comportamento ético-religioso do puritanismo anglo-saxão.

Esse pensamento o levou a se envolver na Revolução Pernambucana de 1817 e na Confederação do Equador. Nesta época, o Brasil estava por ser definido. Continua, até hoje.

Muito sinteticamente, o Brasil monárquico, constitucional e unitário era contestado por várias outras correntes. Aquele foi o pensamento que prevaleceu, defendido pelas elites do triângulo Rio-São Paulo-Minas, que implicava – como temos visto – a marginalização das demais regiões.

Na análise de Roderick Barman, a criação de um Estado unitário no Brasil não foi um “destino manifesto”.

“A adesão das províncias não foi unicamente realizada através da persuasão. A força bruta desempenhou um papel considerável para trazer ao Império regiões periféricas, particularmente as do Extremo Norte.

A formação de um Estado unitário não foi desejada em todo o Brasil, nem sua criação beneficiou todos os territórios que o compunham.” (Roderick Barman)

Na prática, só Bahia e Pernambuco tinham condições de contestar o processo de unificação, porque eram exportadores e tinham boas receitas nas suas alfândegas.

De fato, na Bahia ocorreram, entre outras, a Conjuração Baiana (Revolta dos Alfaiates), em 1798; a Revolução Liberal de 1821; a Federação do Guanais, em 1832, que levaria à Sabinada em 1837.

Entretanto, foi a Província de Pernambuco a que viveu com mais intensidade a luta por suas reivindicações, na Colônia e no Império, com a Guerra dos Mascates (1710), a Revolução Pernambucana de 1817, a Confederação do Equador (1824) e a Revolução Praieira (1848-1850).

O frei e também maçom Joaquim do Amor Divino Rabelo, o frei Caneca, participou de dois desses eventos.

Em sua homenagem, João Cabral de Melo Neto compôs o “Auto do Frade”. Trecho inicial:

NA CELA, O provincial e o Carcereiro

– Dorme.

– Dorme como se não fosse com ele.

– Dorme como uma criança dorme.

– Dorme como em pouco, morto, vai dormir.

– Ignora todo esse circo lá embaixo.

– Não é circo. É a lei que monta o espetáculo.

– Dorme. No mais fundo do poço onde se dorme.

– Já terá tempo de dormir: a morte inteira.

– Não se dorme na morte. Não é sono.

– Não é sono. E não terá, como agora, quem o acorde.

(…)

– Está dormindo como um santo.

– Santo não dorme. Os santos são é moucos. Mas têm os olhos bem abertos. Vi na Igreja.

(…)”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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