“Nascemos para sofrer”

(Nicolau de Cusa)

Nascemos para sofrer” era o ‘zeitgeist‘ (espírito da época) da Idade Média. Com o Renascimento, passou a ser “Quem quiser ser alegre, que o seja“, seguindo o ‘Carpe diem‘, de Horácio.

A Europa abriu os olhos, passou a ver alguma esperança na capacidade humana, que não só dependeria do humor divino.

Erasmo de Roterdã, que morreu em 1536, reconhecia essa luz: “Agora que completei 50 anos de idade, acho que já vivi o bastante. Mesmo assim gostaria de voltar a ser jovem, pelo menos por mais alguns anos, pois vejo surgir ao meu redor um século de ouro.”

Um dos que abriram esse novo tempo foi Nicolau de Cusa, alemão, que viveu entre 1401 e 1464. Foi um pensador místico medieval que se situa no contexto cultural do fim da Idade Média.

Apanhou muito na vida. Na infância, segundo Leandro Konder, o pai, que era barqueiro, teve uma discussão com o filho e, irritado, jogou-o para fora do barco. Assim teria começado para Nicolau a aprendizagem por ‘erros’.

Formado em Direito, aprendeu duramente que esta não era sua vocação: o primeiro processo em que atuou foi um desastre – seu cliente foi condenado a uma pena mais grave do que a pedida pela promotoria. Não era esse seu caminho.

A Igreja, naquela época, era uma arena. Ainda acontecia o “Grande Cisma do Ocidente” (1378-1417), quando vários Papas, representando diversas correntes, disputavam a cátedra de Pedro, que lhes conferiria o poder de orientar os cristãos no mundo inteiro.

Tentava ser conciliador pois, ao seu ver “só pode haver concordância entre diferenças”: não
se pode falar em concordância onde não há diferenças.

Apesar disso, foi para suas paixões, a teologia e filosofia. Apanhou novamente: num rompante, afirmou que Deus e o Universo eram a mesma coisa, por serem ambos infinitos. Pegou uns bons anos de cárcere. Amenizou: “é muito difícil, para um mortal, conceber o infinito.

Finalmente, caiu nas graças do Papa e chegou a ser nomeado ‘legado apostólico para a Alemanha’. Neste papel, proibiu que os padres cobrassem por confissões ouvidas e por absolvições concedidas.

Percebeu que só a consciência da própria ignorância poderia ajudar, como Sócrates.

“Se você não for ignorante nunca poderá entender as coisas que ficam acima.”

Propunha o enigma de ver o invisível através das coisas criadas visíveis.

Sua preocupação central era a combinação da unidade com a diversidade, a interdependência dos opostos. Sem a compreensão da unidade, do todo, perdemos, na contemplação inócua da fragmentariedade do real e naufragamos no relativismo, que mata no ser humano a capacidade de ter convicções suficientemente fortes para empreender grandes ações.

Entre seus amigos estavam Leonardo da Vinci e o cientista Paolo Toscanelli, que inspirou a Cristóvão Colombo a viagem que resultou no descobrimento da América pelos europeus.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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