Messianismos

(Contestado – foto de Celso Júnior)

Messianismo refere-se a movimentos religiosos que ocorrem por fatores sociais internos ou externos ao grupo, sem constituir uma patologia social desviante ou uma reação pré-política dos oprimidos nem como uma reação ao encontro da modernidade ocidental, no dizer de Maria Isaura Pereira de Queiroz.

Os fatores internos são uma espécie de anomia (situação social produzida pelo enfraquecimento dos vínculos sociais e pela perda da capacidade da sociedade regular o comportamento dos indivíduos, na definição de Durkheim), afetando a cultura como crenças, valores e relações sociais. Os externos podem ser transformações importantes na política, economia ou tecnologia.

Essas mobilizações constituem reações a condições de existência materiais, sociais e psíquicas sentidas como adversas pelos segmentos sociais que as protagonizaram. Entretanto, alguns as viam como desvios comportamentais, ou, como os marxistas, como um ato de revolta de alienados, que não sabiam expressar suas vontades políticas em um programa emancipador, optando por uma expressão religiosa para reclamar suas demandas.

Em geral, associamos a ideia messiânica ao cristianismo, mas ela ocorre noutras manifestações religiosas, como o judaísmo e, até entre os indígenas, principalmente os guaranis, que acreditavam num paraíso ancestral – a ‘Terra sem Males‘. Vamos tratar aqui dos movimentos messiânicos ocorridos no Brasil.

Messianismo não deve ser confundido com Milenarismo ou Sebastianismo.

O Messianismo é movido pela expectativa da aparição de um messias – que derrotará o mal e estabelecerá um nova ordem moral e uma vida próspera.

O Milenarismo abarca ideias referentes a um ‘novo mundo’. Baseia-se na crença de uma salvação coletiva total, iminente e final – mas, só para o grupo de fiéis.

O Sebastianismo pregava o regresso de Dom Sebastião, rei português morto pelos mouros em 1580.

Como messiânicos, destacam-se:

  • Santidade de Jaguaribe, ocorrido em 1580, no Recôncavo Baiano: Antônio, um índio que fugira de um colégio de jesuítas, organizou na floresta uma nova seita que se tornou ponto de encontro para índios que fugiam da escravidão na cultura da cana de açúcar. Ele se intitulava ‘papa’ e estava rodeado de santos, santas, bispos e padres. Sua pregação era que os brancos deviam ser cativos, sob o comando indígena.
  • Canudos, entre 1896 e 1897, que resultou na destruição da comunidade e a morte da maior parte dos 25 mil habitantes e de seu líder, Antônio Conselheiro.
  • Contestado, conflito entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, por questão de limites geográficos. Isso foi entre 1912 e 1915. Envolveram-se tropas regulares dos estados, do Exército e um grupo de ‘fanáticos’, que tinham reivindicações além da posse e ocupação das terras. O líder dos ‘fanáticos’, ao lado dos catarinenses, era José Maria, um monge, ex-soldado. Com sua morte, no primeiro combate, explodiu uma luta camponesa: os seguidores de José Maria edificaram uma ‘cidade santa’, de onde passaram a combater. Lutavam pelo direito à propriedade da terra, inspirados pelas pregações messiânicas do monge. Entre seus seguidores estavam os desempregados da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, que havia sido paralisada. Dez mil mortos, estima-se.
  • Yokaanam, agora, em 1946, no então estado da Guanabara. Oceano de Araújo Sá, alagoano, era o líder da Fraternidade Espiritualista Universal. Pregava a união de todas as religiões em torno do evangelho de Cristo e anunciava o fim dos tempos.

Como Milenaristas, tivemos os Muckers, liderados por Jacobina Mentz e João Maurer, ocorrido entre 1869 e 1874, próximo a Porto Alegre.

O Sebastianismo teve duas manifestações, em Pernambuco:

  • Silvestre José dos Santos passou a dizer que quando o número de crentes chegasse a mil, Dom Sebastião regressaria da Ilha das Brumas e montaria um exército que libertaria Jerusalém. Em seguida, um novo paraíso terrestre, “onde os pobres seriam ricos e os ricos, mais ricos ainda”. Isso foi em 1817. Esse episódio ficou conhecido como A Tragédia do Rodeador;  91 mortos e mais de cem feridos.
  • Em 1838, João Antônio dos Santos, um mameluco, percorreu os sertões afirmando que Dom Sebastião estava ‘encantado’. Ele ‘desencantaria’ quando dois enormes rochedos fossem regados com sangue humano. Quando ele ‘desencantasse’, os que haviam sido mortos, se negros ressuscitariam como brancos, se velhos, como jovens … E todos passariam a ser poderosos e imortais. Os sacrifícios foram feitos. Essa foi A Tragédia da Pedra Bonita; morreram 87 pessoas.

O messianismo não acabou, claro. Está vivíssimo.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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