O direito à propriedade privada deve ser subordinado “ao destino universal dos bens da terra e, consequentemente, o direito de todos ao seu uso”

(Giotto di Bondone -:Renúncia aos bens mundanos,1299)

No dia 3 de outubro, o papa Francisco divulgou sua encíclica Fratelli Tutti, sobre a fraternidade e a amizade social. Ela é inspirada em São Francisco, que morreu num 3 de outubro, 794 anos atrás.

“São Francisco, que se sentia irmão do sol, do mar e do vento, sentia-se ainda mais unido aos que eram da sua própria carne. Semeou paz por toda a parte e andou junto dos pobres, abandonados, doentes, descartados, dos últimos.”

Eis um trecho:

“…’entre sarracenos e outros infiéis (…), não façais litígios nem contendas, mas sede submissos a toda a criatura humana por amor de Deus’. No contexto de então, era um pedido extraordinário. É impressionante que, há oitocentos anos, Francisco recomende evitar toda a forma de agressão ou contenda e também viver uma ‘submissão’ humilde e fraterna, mesmo com quem não partilhasse a sua fé.

Não fazia guerra dialética impondo doutrinas, mas comunicava o amor de Deus; compreendera que ‘Deus é amor, e quem permanece no amor, permanece em Deus’ (1 Jo 4, 16). Assim foi pai fecundo que suscitou o sonho duma sociedade fraterna, pois ‘só o homem que aceita aproximar-se das outras pessoas com o seu próprio movimento, não para retê-las no que é seu, mas para ajudá-las a serem mais elas mesmas, é que se torna realmente pai’.

Naquele mundo cheio de torreões de vigia e muralhas defensivas, as cidades viviam guerras sangrentas entre famílias poderosas, ao mesmo tempo que cresciam as áreas miseráveis das periferias excluídas. Lá, Francisco recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos últimos e procurou viver em harmonia com todos.”

Após a divulgação da encíclica, jornais de direita publicaram: “Marx, Lenin e Mao mais moderados do que Bergoglio. A encíclica Fratelli tutti é um hino ao comunismo”.

“Deus nos proteja do comunismo papal. Uma encíclica contra o Ocidente cristão. Se a encíclica Fratelli tutti de Bergoglio fosse realmente aplicada, provavelmente desapareceriam Deus, a Igreja e a cristandade como os conhecemos até agora. Haveria o advento do comunismo e a abolição da propriedade privada”. (Marcello Veneziani; jornal La Verità)

O papa agora é “comunista” e “herege” por falar sobre o cristianismo original e incomodar certos posicionamentos que se irradiam:

“… a história dá sinais de regressão. Reacendem-se conflitos anacrônicos que se
consideravam superados, ressurgem nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos. Em vários países, uma certa noção de unidade do povo e da nação, penetrada por diferentes ideologias, cria novas formas de egoísmo e de perda do sentido social mascaradas por uma suposta defesa dos interesses nacionais.”

Mas, ele também critica “os mercados”, a desagregação social, a colonização cultural, o consumismo voraz, o fanatismo, a deturpação de ‘grandes’ palavras (como democracia, liberdade, justiça, unidade) – usadas como instrumento de domínio …

Fala sobre o “descarte mundial”: “Partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício duma seleção que favorece a um setor humano digno de viver sem limites. No fundo, ‘as pessoas já não são vistas como um valor primário a respeitar e tutelar, especialmente se são pobres ou deficientes, se ‘ainda não servem’ (como os nascituros) ou se ‘já não servem’ (como os idosos). Tornamo-nos insensíveis a qualquer forma de desperdício, a começar pelo alimentar, que aparece entre os mais deploráveis”.

O que irritou mesmo a direita não foi o discurso ‘romântico’ acima. Quando ele escreveu sobre “Repropor a função social da propriedade”, o bicho pegou. O papa afirma que o direito à propriedade privada não deve ser reconhecido como absoluto ou intocável; pelo contrário, deve ser subordinado “ao destino universal dos bens da terra e, consequentemente, o direito de todos ao seu uso”.

O papa Francisco já havia dito na encíclica anterior: “iludimo-nos de permanecer saudáveis em um planeta doente”.

(http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.pdf)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

Um comentário em “O direito à propriedade privada deve ser subordinado “ao destino universal dos bens da terra e, consequentemente, o direito de todos ao seu uso”

  1. “Um estado pode estar no ótimo de Pareto havendo algumas pessoas na miséria extrema e outras nadando em luxo, desde que os miseráveis não possam melhorar suas condições sem reduzir o luxo dos ricos” Amartya Sen

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