O moleiro, seu filho e o burro (La Fontaine)

Marc Chagall, colori per sognare. Le illustrazioni per le fiabe di La  Fontaine | RestaurArs
(Marc Chagall, “O moleiro, seu filho e o burro)

Li em algum lugar que um moleiro e seu filho,

Um velho, o outro pequeno, e não muito criança,

Garotinho de uns quinze anos, diz-me a lembrança,

À feira iam vender seu asno, certo dia;

Para ele parecer mais fresco e com mais brilho,

Amarraram-lhe os pés, e suspenso ele ia;

Pai e filho, depois, o levam qual pingente,

Pobre plebe idiota, ignorante e atrasada;

O primeiro que os viu caiu na gargalhada.

“Que farsa, disse ele, encenará essa gente?

O mais burro dos três não é o que pensa.”

O moleiro percebe então sua ignorância;

Põe a besta de pé, fá-la andar com prestância.

O burro que apreciava o outro jeito de andar,

Queixa-se em seu dialeto. O moleiro não liga.

Faz o filho montar, prossegue e, ao azar,

Três mercadores vêm. Essa cena os intriga.

O mais velho ao rapaz gritou num forte brado:

“Olá! Você aí! Desça, e não bote panca,

Garoto que conduz servo de barba branca;

Cabe a você andar e ao velho estar montado.

– Senhores, diz o ancião, irei vos contentar.”

O menino se apeia p’ra o velho montar,

Quando passam três moças, uma diz: “Que tristeza

Ver assim cambalear o jovem de fraqueza

Enquanto esse velhote, em pose episcopal,

Vai sentado no burro e se acha genial.

– Ninguém, diz o moleiro, estando em minha idade,

Faz pose: Siga, moça, eu lhe digo a verdade.”

Após gracejos mil, tanta gente que apupa,

O homem cede e coloca o filho na garupa.

Mal trinta passos dão, que um grupo, já o terceiro,

Resolve criticar. Um diz: “Gente aloucada!

O asno não aguenta e morre de pancada!

Qual! Carregar assim um burrico maneiro!

Eles não sentem dó do velho serviçal?

Irão vender na feira a pele do animal.

– Diacho! diz o moleiro, é bem fraco da mente

Quem contentar pretende ao pai e a toda gente.

Vamos tentar por fim, se de alguma maneira

Conseguirmos fazê-lo. Ambos descem ao chão.

O burro, aliviado, anda em marcha ligeira.

Certo gajo os encontra, e diz: “A moda é

O burro andar à folga e o moleiro ir a pé?

Quem, o asno ou o patrão deve ter vida dura?

Aconselho a essa gente enquadrá-lo em moldura.

Eles gastam sapato e o seu burro, não.

Nicolau ao revés, pois, se a Joana visita,

Ele monta no burro, assim diz a canção.

De burros belo trio!” O moleiro replica:

“Eu sou burro, é verdade, eu aceito e proclamo;

Mas doravante, a quem me louva ou me critica;

Não me diz nada ou diz coisa que eu amo;

Vou fazer do meu jeito.” Ele o fez e fez bem.

Quanto a vós, segui Marte, ou o Amor, ou os Reis;

Ide, vinde, correi; na província ficai;

Mulher, mosteiro, emprego ou governo tomai:

Pessoas vão falar, disso não duvideis.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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