“Não se pode odiar duvidando do ódio.” (Carolin Emcke)

Bolsonaro é um exibicionista do ódio', diz especialista em extrema direita  - Jornal O Globo
(Carolin Emcke)

“Afundo num lodo profundo,

sem nada que me afirme;

entro no mais fundo das águas,

e a correnteza me arrastando …

Esgoto-me de gritar, minha garganta queima,

meus olhos se consomem esperando por meu Deus.

Mais que os cabelos da minha cabeça

são os que me odeiam sem motivo …” (Salmos 69: 3-5)

O ódio, requentado diariamente é o alimento de quem não se contenta consigo mesmo; invejoso, insatisfeito, mal sucedido, oco, perdido numa vida ‘ingrata’, incapaz de reconhecer sua inaptidão para o desfrute da vida e sem autoconfiança para assumir-se como responsável por esse estado de coisas. Não se vê como ‘membro’ do universo, mas como tendo sido aqui colocado, por razões – quaisquer – que não entende. Cachorro que caiu de um caminhão de mudança, que só tem um objetivo: encontrar um ‘dono’.

No linguajar de Edgar Morin, temos dois vetores; o egocêntrico (sujeito reflexivo-eu) e o que se manifesta desde o nascimento, “quando o recém-nascido espera pelo sorriso, pelo carinho, pelo afago, pelo olhar da mãe …” Esse é o vetor do reconhecimento como “nós“.

“Os seres humanos precisam do florescimento do seu ‘eu’, mas este não pode produzir-se plenamente a não ser no ‘nós’. O ‘eu’ sem o ‘nós’ se atrofia no egoísmo e sucumbe na solidão.” (Morin)

Aquele que deixa seu coração encher-se de ódio, gratuito, é um carente, no mínimo de afirmação ou de aceitação. Por isso, procura um grupo, uma tribo, para se enturmar; grupos quase sempre manipulados por ‘pais adotivos‘ que reforçam que a culpa é do ‘outro’.

“Às vezes me pergunto se deveria invejá-los. Às vezes me pergunto como eles conseguem odiar dessa maneira. Como podem ser tão ‘seguros’. Pois aqueles que odeiam têm de ser seguros. Caso contrário, não falariam ou agrediriam ou matariam dessa forma. Caso contrário, não poderiam menosprezar, humilhar, atacar os outros assim. Eles têm de estar seguros. Não se pode odiar duvidando do ódio.” (Carolin Emcke)

Os que acordam diariamente com o intuito de odiar – mais e mais – precisam de ‘certezas’, mas alimentam-se de ‘imprecisões’. O que é bem definido, nítido, não pode ser bem odiado. Por isso, não aceitam a ciência, mas teorias extravagantes que contrariem o estabelecido fazem sentido para eles. Eles seguem técnicas refinadas de exclusão e estigmatização. E, ficam contentes por se sentirem ‘parte’ de algo.

“Preocupa-me a força que está adquirindo uma ideologia autoritária, antimoderna e baseada em ‘dogmas de pureza‘ que constroem a realidade como se fosse um perigo, uma ameaça. Esta ideologia está mudando o discurso político no sentido de normalizar o racismo, o antissemitismo, o antifeminismo, e contribui para desumanizar as pessoas ou coletivos que mais tarde são vítimas de atentados da extrema direita. O problema é que, quando eles ocorrem, focamos o debate na violência e despolitizamos o contexto ideológico que a torna possível. Não só temos que lutar contra o extremismo quando é violento, mas também contra a ideologia que leva à violência.” (Carolin Emcke – entrevista ao jornal El País em 2019)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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