Autorretrato (Nicanor Parra)

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“Considerem, rapazes,

Esta língua roída pelo câncer;

Sou professor de um colégio obscuro

E perdi a voz de tanto dar aulas.

(Depois de tudo ou nada

Faço quarenta horas semanais.)

Que tal minha cara esbofeteada?

Verdade que dá pena só de olhar!

O que acham deste nariz apodrecido

Pela cal de um giz tão degradante?

Em matéria de olhos, a três metros

Não reconheço minha própria mãe.

O que aconteceu? – Nada!

Acabei com eles de tanto dar aulas:

A luz ruim, o sol,

A venenosa lua miserável.

E tudo isso para quê?

Para ganhar um pão imperdoável

Duro como a cara do burguês

Com sabor e cheiro de sangue.

Para que nascemos como homens

Se nos dão uma morte de animais!?

Às vezes, pelo excesso de trabalho,

Vejo formas estranhas pelo ar,

Ouço corridas insanas,

Risadas e conversas criminais.

Vejam só estas mãos,

Estas bochechas brancas de cadáver,

Estes poucos cabelos que me restam

E estas negras rugas infernais!

No entanto, eu fui assim como vocês,

Jovem, cheio de belos ideais,

Sonhei que fundia o cobre

E limava as faces do diamante:

E hoje aqui estou eu

Atrás dessa mesa desconfortável

Embrutecido pelo lenga-lenga

Das quinhentas horas semanais.”

Nicanor Parra, chileno, morreu em 2018, aos 103 anos.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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