Nas montanhas de Jerusalém (poesia de Yehuda Amichai)

Yehuda Amichai, the Secular Psalmist | The New Yorker
(Yehuda Amichai)

“Aqui, no lugar onde a ruína quer ser outra vez

uma nova casa, sua vontade junta-se à nossa.

Até os espinhos se cansaram de ferir e querem confortar,

uma lápide, arrancada de um túmulo violado,

colocado numa nova parede com o seu nome, suas datas.

Ela está contente porque não a esquecerão.

Os meninos, que só com a força deles tudo teria mudado,

brincam entre pedras e ruína.

Eles não querem mudar coisa alguma.

O cancelamento e uma noite de amor no Nêguev

faz os lírios crescerem nos montes de Jerusalém,

coisas se esvaziam e se enchem,

nem sempre tu estás com as cheias.

Uma planta que se chama sálvia não salva,

mas rasga uma ferida profunda no esquecimento,

lembrança de uma sede antiga.

Tudo se ocupa aqui do trabalho de lembrar:

a ruína lembra, o pomar lembra,

o poço lembra de suas águas, e o pomar plantado

lembra no quadro de mármore um holocausto distante

ou mesmo só o nome de um benfeitor morto

que será um pouco mais lembrado que os nomes de outras pessoas.

Mas nomes não são importantes nessas montanhas,

como no cinema, quando a lista dos créditos sobe na tela

antes do filme se tornar interessante e no fim do filme –

nada mais. Luz acesa, as letras empalidecem ,

baixa a cortina ondulada, portas abertas, é noite lá fora.

Nessas montanhas, importantes são somente o verão e o inverno,

somente a secura e a umidade: as pessoas também

não são senão depósitos de água dispersos por tudo,

como poços, buracos e as fontes das profundezas.”

(tradução de Moacir Amâncio)

O mais cultuado poeta israelense do século 20, Yehuda Amichai (1924-2000) é dono de uma das mais ricas produções poéticas de seu tempo e autor premiado em seu país. Nascido na Alemanha, em uma família judaica ortodoxa, chegou à Palestina em 1935. Integrou o exército britânico na Segunda Guerra Mundial, lutou na Guerra da Independência – deflagrada pelos países árabes após a fundação do Estado judaico, em 1948 –, na Guerra do Sinai, em 1956, e na Guerra do Yom Kipur, em 1973, ao mesmo tempo em que se tornava professor, atividade exercida durante toda a sua vida profissional, ao lado da literatura.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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