Os judeus nova-iorquinos

Judeus ultraortodoxos condenam delatores de abusos em comunidade ...

“… porque já em Portugal
Quem não costuma mentir
não alcança um só real” (Gil Vicente, 1526)

“Ser judeu implica ser um igual para manter a diferença”, resume Reinaldo Azevedo.

Com a invasão holandesa, em 1630, muitos judeus que haviam fugido das perseguições em Portugal e Espanha vieram com os tolerantes holandeses.

Já havia judeus por aqui, poucos: o primeiro texto literário escrito em nosso solo – “Prosopopeia”, de Bento Teixeira (um cristão-novo) – é de 1601. Aliás, Bento Teixeira morreu na prisão da Santa Inquisição, em Portugal.

Essa relativa harmonia com os judeus encerrou-se quando da derrota holandesa, em 1654. Foram novamente expulsos (uma parte se embrenhou pelos sertões nordestinos) e alguns foram buscar guarida na acanhada Nova Amsterdã, que depois foi batizada como Nova York pelos ingleses em 1674. Curiosamente, Natal, capital do Rio Grande do Norte, também era chamada pelos holandeses de Nova Amsterdã.

Um pequeno grupo de 23 refugiados sobreviveu ao naufrágio de um navio que deixou Recife, e chegou a Nova Amsterdã em 7 de setembro de 1654.  À época, Recife era uma cidade promissora, enquanto a Nova Amsterdã era um acanhado vilarejo, com menos de mil habitantes. Mas, já se ouvia 18 idiomas entre os moradores e visitantes.

Atualmente, Nova York é a cidade mais judaica, após Tel Aviv. Nos cemitérios dos judeus pioneiros pode-se ler sobrenomes comuns no Brasil: Fonseca, Mesquita, Nunes, Seixas, Cardoso, Bueno.

“A sabedoria suprema é ter sonhos bastante grandes para não se perderem de vista enquanto os perseguimos.” (William Faulkner)

As várias diásporas forçaram o desenvolvimento de algumas aptidões especiais entre os judeus – que não pudessem ser facilmente confiscadas: musicistas, filósofos, financistas, comerciantes, tecnólogos etc.

Essas qualidades e a gana pela sobrevivência em terras nem sempre hospitaleiras, talvez tenham estimulado os judeus a fazerem escolhas arriscadas, nem sempre acertadas.

Vejam o que diz Gilberto Freyre (provavelmente descendente de cristãos-novos):

“(…) prestaram-se os judeus em Portugal aos mais antipáticos papéis na exploração dos pequenos pelos grandes. Por aí se explica que tivessem gozado da proteção dos reis e dos grandes proprietários e, à sombra dessa proteção, prosperado em grandes plutocratas e capitalistas. Concentrando-se nas cidades e nos portos marítimos, concorreram para a vitória da burguesia sobre a grande propriedade territorial, aliada mais à Igreja do que aos reis.”

Um parêntese: o primeiro “investidor estrangeiro” no Brasil foi o banqueiro Jakob Fugger. Este, financiou o cristão-novo Fernando de Noronha a explorar a nova colônia mediante contrato de arrendamento. A extração de madeira foi tão bem sucedida que D. Manuel tornou o cristão-novo um donatário da colônia: entregou-lhe a ilha que hoje tem seu nome.

Em Nova York, os judeus tiveram papel importante no fortalecimento da independência americana. Um grupo relevante de judeus também participou da fundação da Bolsa de Valores de Wall Street.

Houve sobressaltos, como a violência que eclodiu (em 1792) após a montagem da peça O Mercador de Veneza, de Shakespeare.

(Estátua da Liberdade)

Em 1883, Emma Lazarus, judia, fez sua homenagem à cidade, com o poema “O Novo Colosso”:

“Não como o gigante de bronze da antiga fama,

Cujos membros subjugam os campos de baixo de si;

Aqui cintilando aos portões do crepúsculo, vê-se

Uma dama robusta com um farol cuja flama

É o relâmpago aprisionado, e ela se chama Mãe dos Exilados.

Da mão que, meiga, se estende

Brilham boas-vindas; o seu olhar compreende

O porto que as nobres cidades gêmeas defendem.

‘Segurai, antigas terras, vossa pompa!’ diz ela

Com lábios quietos. ‘Dai-me vossos pobres fatigados,

As multidões que por só respirarem livres zelam,

Resíduos miseráveis dos caminhos fervilhados.

Mandai-os a mim, desabrigados, que a minha vela

Os guiará, calmos, através dos portões dourados!'”

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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