Credibilidade ou, onde está a saída?

O mercado financeiro já começa a se alvoroçar: taxa de juros inacreditavelmente baixa e com propensão a mais redução, taxa de câmbio em patamar elevado, risco-país em nível muito alto; déficit primário próximo a 11% do PIB neste ano; dívida interna bruta chegando perto de 92% do PIB (76% em 2019); queda no PIB ao redor de 5% no ano. Um quadro assustador. Como sairemos dessa situação?

Com rigor e seriedade, fundamentos de credibilidade.

Vamos por partes.

Taxa de juros: pode chegar a 2% a.a., o que é ótimo para a economia real, exceto para rentistas. É bom também para redução do déficit nominal. No ano passado foram pagos R$ 330 bilhões de juros sobre a dívida pública; valor equivalente ao pagamento da folha de pessoal. O baixo rendimento dos juros alimenta o interesse por renda variável; ganha o Mercado de Capitais.

Taxa de câmbio: a desvalorização do real ajuda aos exportadores. É uma oportunidade para as empresas nacionais ingressarem no mercado externo e funciona como uma barreira para os concorrentes importados.

O câmbio, independentemente do seu nível, não importa – não assusta – os investidores estrangeiros no mercado de renda fixa e, estimula os investidores de capital porque os ativos ficam baratos em dólar. O que os afasta é o risco, a volatilidade, não o patamar.

Risco-país: o risco dos títulos brasileiros está elevado. O CDS (Credit Default Swap) está ao redor de 280 pontos (chegou a 400 em março) e, o EMBI+ (Emerging Markets Bond Index Plus), superior a 370 pontos. Isso é fruto das instabilidades, mundial e local. Segundo estudos de Julia Braga, da Universidade Federal Fluminense:

“O que temos analisado é que o risco-país de países emergentes, sejam eles o Brasil, a Argentina, a África do Sul ou o México, têm um componente em comum que é bem forte, explica cerca de 60% a 70% do CDS e do EMBI. Esse componente é muito influenciado por alguns indicadores associados ao ciclo de liquidez internacional, como a volatilidade do índice S&P 500, medida pelo VIX, os juros de 5 anos das Treasuries e a variação dos preços dessa commodity”

O resto deve-se ao risco local, inclusive à instabilidade política.

Déficit primário e dívida pública: o déficit neste ano é extraordinário, e assim deve ser visto. O governo precisa apoiar os cidadãos e empresas mais duramente afetados pelo isolamento social. Indiscutível. O dinheiro é da nação; o governo é só o agente.

Depois da crise, será necessário fazer um esforço para redução da dívida. Por que?

A rigor, não é necessário reduzir a dívida; o que não se pode é deixa-la crescer cancerosamente. Também nessa questão o que importa é a credibilidade dos governantes. Se o governo é perdulário e incompetente nas alocações dos recursos – infelizmente, parecem características dos nossos governos – há o temor dessa bola de neve virar avalanche.

Portanto, e considerando que essa provavelmente não será a última catástrofe à vista – aguardemos a crise climática e novas pandemias – e, para se evitar o esperado descontrole macroeconômico, há de se buscar a redução da dívida.

Há vários atalhos para sua redução: a) “o governo tem um colchão para cobrir pouco mais de seis meses dos vencimentos da dívida pública interna, que totalizarão R$ 808,2 bilhões, este ano”, segundo Lílian Beraldo, da EBC, que poderia ser usado para amortização de parte da dívida; b) usar parte das reservas externas; c) correr com privatizações.

Para evitar o teimoso déficit primário, fazer o dever de casa: reforma administrativa; acabar com os subsídios, principalmente os decorrentes dos regimes fiscais Simples e do Lucro Presumido (alimentadores da desigualdade); modernização tecnológica do aparelho estatal; e, voltar a crescer. Aliás, a forma mais virtuosa para se reduzir a relação dívida/PIB é crescer a uma taxa superior à taxa de juros (desde que não haja déficit primário). Se os juros estiverem em 2%, crescer 3% a.a., por exemplo.

Para voltar a crescer: reforma tributária; estímulos certos para P&D em biodiversidade e tecnologias de ponta; esforço hercúleo em educação básica e funcional para os milhões dos sem emprego ou “empreendedores forçados”.

Tudo é possível, desde que cobremos Credibilidade (competência com dedicação) aos governos. Aí, poderemos perder o jogo.

Para crescer, não falei, é necessário que aumentemos o volume de Investimentos. Saímos de 21% de Investimentos (em relação ao PIB) em 2013, para 15% a partir de 2018. Investimento público sumiu (menos de 1% neste ano), porque o governo gasta demais. 80% desses gastos vão para funcionalismo e previdência! A reforma previdenciária foi feita; falta a administrativa. Aumentar impostos não é a saída; falta melhor efetividade. Vejam o caso das despesas com educação: elas representavam 3,9% do PIB em 2000 e atingiu 6,2% em 2015 (crescimento de 59%) e, nossos indicadores continuam péssimos.

Há outras abordagens, como a prevista pela MMT (Moderna Teoria Econômica), defendida entre nós por André Lara Resende. Mas, deixemos para outra hora.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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