VISLUMBRES DA IMORTALIDADE VINDOS DE RECORDAÇÕES DA PRIMEIRA INFÂNCIA (William Wordsworth, 1807)

William Wordsworth - Wikipedia

Houve um tempo em que prado, bosque, e córrego,
A terra, e cada visão corriqueira,
Para mim pareciam
Revestidas de luz celestial,
Como a glória e o frescor de um sonho.
Nada agora é o que foi outrora; –
Onde quer que eu vá,
De noite ou de dia,
As coisas que eu vi eu agora não posso mais ver.

O arco-íris vem e vai,
E a rosa é adorável,
A Lua prazerosamente
Olha ao redor quando os céus estão límpidos,
As águas em uma noite estrelada
São belas e formosas;
O brilho do sol é um nascimento glorioso;
Mas ainda assim, eu sei que onde quer que eu vá,
Alguma coisa gloriosa desapareceu da
face da terra.

Agora, enquanto as aves cantam assim
uma canção alegre,
E enquanto os cordeirinhos saltam
Como se fosse ao som do tambor,
A mim, sozinho, veio um pensamento de mágoa:
Uma expressão oportuna aliviou esse
pensamento,
E eu estou forte novamente:
As cataratas sopram suas trombetas do alto da rocha íngreme;
Minha mágoa não afetará mais a (bela e
alegre) estação;

Eu ouço os ecos através da multidão de montanhas,
Os ventos provindos dos campos do sono
vêm a mim,
E toda a terra está festiva, alegre;
Terra e mar
Entregam-se à jovialidade,
E com o coração de Maio (ou seja, alegre, jubiloso)
Todos os animais festejam;
Tu, Criança nascida da Alegria,
Grita à minha volta, deixa-me ouvir os
teus gritos, ó tu, feliz
Menino pastor!

Benditas Criaturas, eu ouvi a chamada
Que fizestes umas às outras, eu vejo
Os céus a rir convosco na vossa comemoração;
Meu coração se alegra com a vossa alegria radiante,
Minha cabeça também está alegre,
A plenitude da vossa felicidade– eu a
sinto – eu a sinto por inteiro.
Oh que dia malévolo seria este se eu estivesse taciturno
Enquanto a própria Terra está se adornando,
Esta doce manhã de Maio,
E as Crianças trazendo
De todos os lados,
Em mil vales distantes e amplos,
Flores frescas; enquanto o sol quente brilha,
E o Bebê se agita no braço de sua mãe:
Eu ouço, eu ouço, eu ouço com alegria

– Mas há uma Árvore, uma entre muitas,
Um único campo que avistei,
Ambos (a árvore e o campo) falam de algo que se foi:
O Amor-Perfeito aos meus pés
Repete a mesma história:
Para onde fugiu o brilho de visões?
Onde ele está agora, a glória e o sonho?

Nosso nascimento é apenas sono e esquecimento:
A Alma que nasce conosco, estrela da nossa vida,
Foi gerada em outro lugar que não aqui,
E vem de longe:

Não nascemos em completo esquecimento,
E nem em total nudez,
E sim arrastando atrás de nós nuvens de glória
Provindas de Deus, que é nosso lar:
O Céu ainda está próximo de nós em nossa infância!
Sombras do cárcere começam a fechar-se
Sobre o Menino à medida em que ele cresce,
Mas Ele enxerga a luz, e vê de onde ela emana,
Em sua alegria ele a vê;
O Jovem, que, diariamente precisa ir para
mais e mais longe do leste,
Ainda é o Sacerdote da Natureza,
E pela visão esplêndida
Ele é visitado em seu caminho;
Por fim, o Homem a vê desaparecer
E desvanecer-se à luz do dia comum,
corriqueiro.

A Terra enche seu colo com seus próprios prazeres;
Desejos que lhe são naturais,
E, mesmo tendo algo que faz lembrar a mente de uma Mãe,
E sem nenhum objetivo indigno,
A Ama faz tudo o que pode
Para que o seu Filho adotivo, o homem ao qual ela dá acolhida,
Esqueça as glórias que ele um dia conheceu,
E aquele palácio imperial de onde proveio.

Eis a Criança entre os seus êxtases de recém nascida,
Uma criatura Querida de seis anos, do tamanho de pigmeu !
Veja, onde em meio a tudo o que sua mão alcança ela está,
Coberta com as marcas dos beijos de sua mãe,
E tendo sobre ela a luz dos olhos de seu pai!
Veja, aos pés dela (criança), um pequeno brinquedo ou artefato,
Algum fragmento do seu sonho de vida humana,
Moldado por ela própria com arte recém aprendida;
Um casamento ou uma festa,
Um lamento por luto ou um funeral;
E isso agora toma completamente o seu coração,
E nisto ela baseia a sua canção:
Então ela vai adaptar sua linguagem
Aos diálogos dos negócios, do amor, ou das disputas;

Mas não falta muito tempo,
Para que tudo isto seja jogado de lado,
E com uma nova alegria e orgulho
O pequeno Ator represente outro papel;
Enchendo de vez em quando o seu “palco espirituoso”
Com todas as pessoas, até chegar à Idade da paralisia
Que a vida traz consigo em em seu equipamento;
Como se toda a sua vocação
Fosse a imitação interminável.

Tu, cuja aparência exterior desmente
A Imensidão de tua alma;
Tu melhor de todos os filósofos, que ainda entretanto manténs
A tua herança, teu Olho entre os cegos,
Tu, que, surdo e mudo lês a profundidade eterna,
Assombrado para sempre pela mente eterna, –
Profeta Poderoso! Vidente abençoado!
Em quem as verdades descansam,
Que nos esforçamos durante toda nossa vida para encontrar,
Perdidas na escuridão, na escuridão da sepultura;
Tu, sobre quem a tua Imortalidade
Se debruça como o dia, ou como um Senhor sobre um Escravo,
Uma presença que não é para ser colocada de lado;
Tu, Criança, ainda gloriosa na força
Da liberdade nascida do céu na altura do teu ser,
Por que essas dores graves provocas
Para trazer o jugo inevitável dos anos,
Lutando assim às cegas contra a tua bem-aventurança?
Em breve tua Alma receberá seu fardo terrestre,
E a mentira cairá sobre ti pesadamente
Como a geada, e quase tão profundamente
como a vida!

O alegria! Que em nossas chamas
É algo que vive,
Pois a natureza ainda se lembra
Daquilo que era tão fugidio!
O pensamento dos nossos anos passados ainda vive em mim,
Bênção perpétua: não de fato
Por aquilo que é mais digno de ser abençoado –
Deleite e liberdade, a crença simples
Da Infância, quer ocupada ou em repouso,
Com a esperança recém criada ainda vibrando no peito:
– Não é para estes que eu elevo
A canção de graças e louvor;
Mas para aqueles questionamentos obstinados
Do sentido e das coisas exteriores,
Que nos escapam, que desaparecem;
Dúvidas vazias, apreensões de uma criatura
Movendo-se em meio a mundos não concretizados,
Instintos surgidos da nossa natureza mortal
Tremeram como uma criatura culpada surpreendida:
Mas, para aqueles primeiros afetos,
Aquelas ensombrecidas lembranças,
Que, seja lá o que forem,
São entretanto a fonte de luz de todo o nosso dia ,
São entretanto uma luz mestra de toda a nossa visão;
Nos sustentam, nos acalentam e têm poder de fazer
Nossos anos ruidosos parecerem momentos na existência
Do silêncio eterno: verdades que despertam e que
Nunca perecerão;
Que nem apatia, nem qualquer louca empreitada,
Nem homem nem menino,
Nem tudo o que é o oposto da alegria
Pode abolir ou destruir por completo!
Assim, em uma época de bonança
Por mais longe que estejam do mar,
Nossas almas avistam aquele oceano imortal
Que nos trouxe aqui,
E podem num minuto ir para longe daqui,
E ver Crianças brincarem na praia,
E ouvir as poderosas águas rolando sempre.

Então, cantai, pássaros ,cantai, cantai uma canção alegre!
E deixai os Cordeirinhos Inocentes pularem
Como se fosse ao som do Tambor!
Nós no nosso pensamento vamos nos juntar a vós
Vós, que tocais a flauta,
Vós, que através dos vossos corações hoje
Sentis a alegria de Maio!
Embora o brilho que outrora já foi tão intenso
Seja agora tomado para sempre de minha vista,
Embora nada possa trazer de volta a hora
De esplendor na relva, de glória na flor;
Não vamos lamentar, e sim encontrar
Força naquilo que ficou para trás;
Na simpatia essencial, original, primitiva
Que tendo sido, deve sempre ser;
Nos pensamentos tranquilizantes que se projetam
Para longe do sofrimento humano;
Na fé que enxerga além da morte,

Nos anos que trazem a mente filosófica.

E ó, vós fontes, prados, colinas e bosques,
Não pressagiai nenhuma interrupção dos nossos amores!
No entanto, no fundo do meu coração eu sinto o vosso poder;
Eu só abandonei um prazer:
Viver sob a vossa influência mais habitual.
Eu amo os regatos que correm para os teus canais,
Ainda mais do que quando eu os percorri despreocupadamente;
O brilho inocente do Dia que acaba de nascer
É adorável ainda;
As Nuvens que se juntam ao redor do sol
Tomam um sóbrio colorido de um olho
Que vigia a mortalidade do homem;
Uma outra raça existiu, e outros louros foram ganhos.
Graças ao coração humano pelo qual vivemos,
Graças à ternura dele, às suas alegrias e temores,
Para mim a mais reles flor pode suscitar
Pensamentos que frequentemente são
profundos demais para ser expressos por
lágrimas.

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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