Somos aquilo que comemos

Weston Andrew Price (1870-1948) era um crítico da modernidade. Afirmava, nos anos 1930, que na civilização moderna, apesar de todo seu desenvolvimento aparente, da conveniência que oferece e de seu progresso técnico e científico, o homem torna-se fisicamente decadente. Apresentava a modernidade como degeneração física. Ele era um cientista da saúde.

Aos cientistas sociais cabia a crítica à modernidade nos demais aspectos (ameaça aos costumes, à religião, às instituições, ao capitalismo, ao liberalismo, ao socialismo, à democracia, à desvalorização de valores supremos etc.).

Apontava, então, que o modo de vida e, mais diretamente, a dieta ocidental relacionam-se à incidência significativamente maior de câncer, doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade se comparadas a dietas e modos de vida tradicionais.

Ressaltava que pesquisas realizadas por médicos europeus e americanos que trabalhavam com populações nativas em várias partes do mundo perceberam a ausência quase completa de doenças crônicas comuns no Ocidente.

Doenças comuns em países ‘modernos’, como doenças cardíacas, câncer, obesidade, hipertensão, AVC, apendicite, diverticulite, deformação da arcada dentária, cáries, varizes, úlceras e hemorroidas, por exemplo, inexistiam ou pouco apareciam entre povos nativos.

Price era dentista, além de nutricionista e antropólogo. Na época, levantou-se um debate para saber se o aparecimento crescente de cáries se devia à higiene ou à nutrição. A higiene venceu o debate; era rentável e mais fácil de resolver do que os problemas nutricionais de todo o sistema alimentar. Price defendia que a causa dos problemas dentários era nutricional.

Fez uma série de viagens de pesquisa, observando grupos populacionais isolados.
“O exame desses grupos revelou alta imunidade a muitas enfermidades modernas enquanto estavam suficientemente isolados e vivendo de acordo com os programas nutricionais direcionados pelo saber acumulado do grupo.
Onde indivíduos de mesma origem adotavam alimentos e hábitos alimentares da civilização moderna, havia uma perda prematura das características de alta imunidade do grupo isolado. A questão fundamental sobre a causa das cáries dentárias rapidamente estabeleceu-se como sendo controlada diretamente pela nutrição.

Sobre as dificuldades de defender a tese de que o dente limpo não tem cáries, argumentou: é fisicamente impossível manter os dentes bacteriologicamente limpos no ambiente bucal; e muitas raças primitivas têm seus dentes sujos com comidas cheias de amido quase o tempo todo e não se esforçam para limpá-los. Apesar disso, eles praticamente não têm cáries”.

Constatou, também, que não há dieta ideal única. A predominância na dieta variava de frutos do mar, laticínios e carne a frutas, hortaliças e grãos. Os tipos de alimentos disponíveis dependiam, obviamente, do ambiente habitado.

A saúde se debilitava com a chegada do comércio e da ‘civilização’, a partir da introdução de farinha e açúcar brancos (e seus derivados), xaropes, e arroz refinado.

“Somos aquilo que comemos”, dizia Emílio Peres, o “pai dos nutricionistas portugueses”.

Ou, mais longe, com Hipócrates: “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”.


Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

2 comentários em “Somos aquilo que comemos

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