Desastre planejado

Pensamos ‘desenvolvimento’, arraigadamente, pelo seu caráter economicista. O desenvolvimento como performance econômica. Conseguido, tudo viria a reboque.

Entregamos o planejamento do entorno de nosso futuro a economistas, nos quais governantes se apoiam, emolduram e exibem. Lembro as últimas eleições presidenciais; o trunfo principal era o nome do economista que traria o ‘desenvolvimento’.

A crise que vivemos talvez nos traga alguma clareza sobre o que, de fato, importa.

Acontecimento é um fenômeno de vidência coletiva – enxerga-se o que antes parecia opaco ou impossível”, disse Peter Pál Pelbart, a respeito das Jornadas de junho de 2013.

Desenvolvimento, entretanto, não se reduz a crescimento econômico. É um processo pelo qual “os homens interagem com o meio afim de efetivarem suas potencialidades, satisfazendo suas necessidades e renovando suas aspirações.” (Andrei Cechin)

Numa concepção mais completa: “o desenvolvimento é um processo de ampliação das liberdades humanas, ou seja, de expansão das escolhas que as pessoas têm para terem vidas plenas e criativas. O crescimento econômico é um simples meio nesse processo. Os benefícios do crescimento devem servir à ampliação de no mínimo quatro capacidades humanas mais elementares: ter vida longa e saudável, ser instruído, ter acesso aos recursos necessários a um nível de vida digno e ser capaz de participar da vida na comunidade.” (Amartya Sen)

Saúde, educação, equivalência de condições e voz.

Brasil. No final do século XIX, menos de 10% de sua população viviam em cidades. Hoje, cerca de 85% da população vivem em áreas urbanas. Em 1890, as três maiores cidades brasileiras eram Rio de Janeiro, Salvador e Recife, com mais de 100 mil habitantes! São Paulo ainda era ‘pequena’.

A escravatura havia acabado e os libertos ficaram totalmente livres: de terras, moradias, formação profissional e de inserção social. O país optou por abrir as portas para imigrantes, brancos e asiáticos. A exclusão dos pobres (principalmente negros) nos marca desde a abolição e o nascimento da República.

Esses pobres ficaram, literalmente, à margem. Incharam as cidades, ‘enfeiando-as’.

Até as cidades ‘planejadas’, como Belo Horizonte e Brasília, não os consideraram – não foram reservados espaços para seus construtores braçais e para os que chegavam à busca de oportunidades. Pobres e natureza foram esquecidos.

“… uma ocupação voraz do território urbano, indiferente aos elementos naturais: impermeabilização extensiva do solo, supressão da vegetação, emissão de poluentes. Os ‘males’ do progresso, que o futuro os solucionará …” (Roberto Andrés)

Pensar o espaço urbano – priorizando os moradores ao invés dos automóveis – é uma alternativa que a crise nos mostra.

(dss, 17 junho 2020)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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