A Revolução

Aprendemos que, num dia qualquer, 14 de julho de 1789, muitos
acordaram mal-humorados, saíram às ruas e, tomaram a Bastilha.
Não foi só isso, sabemos. Esse pode ter sido o gatilho, uma
demonstração do ‘juntos, podemos’.
Toda uma situação fora criada, calmamente, ao longo de séculos.
No final do século XVIII, a França colecionava crises: uma econômica,
entre as instituições, nos valores e, religiosa.
Felizmente, o Brasil não é a França; nosso povo é ordeiro. Os
franceses, estranhamente, são pouco agradecidos, esquecem que
moram na ‘França’.
Vamos, em linhas rápidas falar sobre elas.


Crise econômica: Em 1780, a França era a maior potência
europeia, com 25 milhões de pessoas. A indústria expandira-se
e se diversificava. Mas, algumas indústrias não eram
competitivas, principalmente a têxtil, com os ingleses
empregando sua tecnologia 1.0, os teares a vapor.
E o governo, acontece, estava falido. Meteu-se,
imperialisticamente, a apoiar os revoltosos americanos.
Os ingleses perderiam uma grande colônia e, a hegemonia
estava em disputa.


Os gastos públicos excediam em um terço as rendas do
governo (hoje, chama-se déficit).
Esse um terço que excedia a arrecadação era para pagar
(adivinhem) os juros sobre os empréstimos contraídos pelo
governo (dívida pública).
Naquela época – isso acabou – havia uma prática estranha de
sonegação e corrupção. Principais sonegadores e corruptos:
nobres e burgueses ricos. Os pobres pagavam tudo direitinho.
Ainda, a safra 1787-88 de trigo foi péssima. O preço do pão (e
do brioche) foi quadruplicado.
Por outro lado, os produtores de uva tiveram sucessivas
supersafras, que fizeram despencar o preço do vinho.
Pão caro, vinho barato.
Na época, não havia ‘favelados’, mas os arredores das grandes
cidades eram tomados por sans-culottes (‘sem-cuecas’) e, o
número de desempregados chegava a 200 mil! A bandidagem
estourou.
Carência, desigualdade, falta de segurança …
Desordens e tumultos apareciam com frequência.
Enquanto isso, agitadores pregavam uma ‘nova era de
liberdade e de bonança’.


Crise Institucional: Havia uma figura medieval chamada
Estados Gerais, que há mais de 150 anos estava sem uso.
Na crise, Luís XVI decidiu ressuscitá-la. Erro de avaliação.
O que eram esses ‘Estados Gerais’?
Na Idade Média, sempre que os reis queriam instituir um novo
imposto ou introduzir uma inovação administrativa, os convocava.


São três estamentos, óbvios: em primeiro lugar, o clero;
seguido pela nobreza e, em terceiro lugar, os outros.
Esses ‘outros’ não estavam contentes. Além da crise
econômica, não queriam mais tolerar as imunidades tributárias
da Igreja e os privilégios da nobreza.

Crise dos valores: O século XVIII ficou conhecido como o
‘século das luzes’. A razão desalojava os dogmas religiosos. A
fé voltava-se para a ciência. Nasciam a cirurgia, a geologia, a
química, a metalurgia, a biologia … e o mito do ‘progresso
perpétuo’. A humanidade sempre evoluiria para melhor.
A razão substituindo a autoridade.
Interessante que os criadores desses mitos não foram os
cientistas – que humildemente se subordinam aos fatos -,
foram os ‘divulgadores’ da ciência, os jornalistas de ciência da
época, que se deslumbraram com o poder ‘sem limites’ da
razão humana.


“As revoluções se fazem nos espíritos antes de
passarem para os fatos”, dizia Albert Mathiez.

Jean-Jacques Rousseau também ‘envenenara’ o ambiente, com
suas críticas ao papel do social na formação humana.
Ele tinha um ideal: a sociedade em ‘estado puro’.
Ele se opunha ao calvinismo, que insistia na corrupção da
natureza humana pelo ‘pecado original’.
A sociedade, sim, precisaria ser reestruturada pela base, para
se criar um ‘novo homem’. Essa discussão que nunca acaba.
Essa não era a moral que a Igreja pregava. Era algo da moral
pagã, como divulgada por Cícero, Marco Aurélio, Aristóteles e
outros.
Ao desconsiderar o pecado e a necessidade da autoridade
divina como guias da nossa razão, abria-se caminho para a
relativização da moral. Ainda em curso.


Crise religiosa: Naquela época, quase um porcento da
população era de religiosos.
A igreja era proprietária de cerca de um sexto do território
francês, tanto em terras como em edifícios públicos. E, tinha
imunidade fiscal e privilégio de foro. Como se diz na minha
terra: ‘um pouco demais’.
Bom, paremos por aqui.
Dá para entender que o caldeirão estava fervendo.
Motivações havia. Restava a mobilização. E, eles estavam
agindo.

(dss, 12 junho 2020)

Publicado por Dorgival Soares

Administrador de empresas, especializado em reestruturação e recuperação de negócios. Minha formação é centrada em finanças, mas atuo com foco nas pessoas.

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